A ARMADILHA DO CONSERVADORISMO

Luciano Takaki | 2022

O CONSERVADORISMO COMO INIMIGO PRAGMÁTICO DA REALEZA DE CRISTO

 INTRODUÇÃO

Terminada as eleições presidenciais brasileiras de 2022, onde o candidato dito conservador Jair Messias Bolsonaro (PL) foi derrotado pelo progressista Luís Inácio Lula da Silva (PT), muitos católicos parecem ter perdido razão. Com efeito, não faltou aqueles que passaram dias e dias nas frentes dos quartéis esperando que as Forças Armadas (F.F.A.A.) façam algo para que se revertesse a situação ou que a posse do Lula fosse impedida. O tempo passando, ficou evidente a negligência de muitos católicos para com a doutrina da Realeza de Cristo.

Quando se trata de Realeza de Cristo, a oposição à esquerda e ao comunismo não é per se suficiente. O anticomunismo, assim como o antiesquerdismo, não é mais que mera consequência da defesa dessa doutrina dada a maldade ontológica dessas perversíssimas ideologias. Com efeito, o anticomunismo não deve ser um princípio, pois assim o católico se alinharia com qualquer coisa desde que seja anticomunista. A Realeza de Cristo nos obriga a defender certos princípios que, como se observou em muitos que caíram no bolsonarismo, pareceram estar completamente ausentes. Com efeito, urge aqui, sem ignorar a perversidade das ideologias de esquerda, ensinar também a perversidade da direita. Tanto a direita como a esquerda são revolucionárias e aqui será demonstrado com relação ao conservadorismo.

Infelizmente, muitos católicos que se dizem tradicionais caíram na trapaça intelectual, nas palavras do Gustavo Corção (1896-1978), no jogo esquerda-direita (cf. A FARSA DO JOGO ESQUERDA-DIREITA). Aqui vale citar novamente o que escreve Jean Madiran (1920-2013) sobre o assunto:

A distinção entre a esquerda e a direita é sempre uma iniciativa da esquerda, feita pela esquerda e em proveito da esquerda. Há uma direita na proporção em que uma esquerda se forma para designar a direita e a ela se opor: o inverso nunca se dá. Os que instauram e põem em funcionamento o jogo Esquerda-Direita, logo se situam na esquerda de onde delimitam a direita para combatê-la e excluí-la. Num segundo momento, a direita, assim designada e apartada, arregaça as mangas, nunca muito depressa nem com muita disposição, e então se organiza, se defende, contra-ataca e às vezes consegue vitórias…

Por isso, será “de direita” aquele que a esquerda designa ou denuncia arbitrariamente como tal: o inverso não é verdade, não existe. A arbitrariedade do processo se explica, ou se impõe, já que o jogo Esquerda-Direita, que mais exatamente deveria chamar-se esquerda-contra-direita é inventado, conduzido e julgado sempre pela esquerda, jamais pela direita (“La Droite et la Gauche”, Nouvelle Éditions Latines, 1977. Apud, GUSTAVO CORÇÃO; O Século do Nada, Vide Editorial, 2020, 118).

O que quero dizer é que o bolsonarismo é parte do problema, não da solução. A verdadeira solução, não apenas para o Brasil como para qualquer lugar da Terra, é dupla: (1) a conversão da sociedade e (2) submeter a mesma sociedade à Realeza de Cristo. Como isso se dá, explico mais tarde. Antes, convém explicar o problema atual.

Com todos os crimes e outros problemas envolvendo o Lula e o Partido dos Trabalhadores, e tudo o que decorreu pela esquerda no mundo inteiro, surgiu uma aparente reação a isso em especial em dois países: Estados Unidos e Brasil. Foi o que podemos chamar de reação conservadora, que no Brasil foi liderada por Olavo de Carvalho (1947-2022), que reside nos Estados Unidos. Eu mesmo percebi isso à época e cheguei comprar brevemente a ideia. Eu mesmo comprei diversos livros do autor e livros recomendados por ele. Mas também me deparei com outros dois autores: Orlando Fedeli (1933-2010) e Carlos Nougué (1952- ainda vivo enquanto escrevo). Concomitantemente, também conheci o tomismo.

Não demorou, após leituras de autores tradicionalistas e ultramontanos em geral, que o conservadorismo padece de diversos problemas por ser antes um efeito do liberalismo, ou melhor, uma parte dele. A rejeição à direita como um oposto meramente dialético da esquerda (ou seja, não se opõe verdadeiramente) que sustenta a Revolução aprendi com Orlando Fedeli (cf. ORLANDO FEDELI & FERNANDO SCHLITHLER; Sob a Máscara – as polêmicas de Orlando Fedeli e Fernando Schlitler, 2029, 398 p.). A direita, segundo Orlando Fedeli, mantém a Revolução como uma falsa oposição à esquerda, o que já foi denunciado por Jean Madiran. Mutadis mutandis, o conservadorismo é uma falsa oposição ao progressismo. Com Carlos Nougué, aprofundei-me na doutrina da Realeza de Cristo. Rúben Calderón Bouchet (1918-2012) complementa o que faltou para perceber o mal que é o conservadorismo. Veremos que o trabalho deles estão em perfeita sintonia com a Doutrina Católica.

Como o leitor verá, aqui não exporei – em defesa da posição política da Igreja, que é a nossa – nenhuma novidade. Como referência, usarei os próprios autores conservadores, como Roger Scruton, Russell Kirk, João Camilo de Oliveira Torres é Olavo de Carvalho. Não li Edmund Burke o suficiente para fazer uma crítica direta, mas Scruton e Kirk são o suficiente por serem influenciados. Para a refutação, muno-me dos documentos magisteriais, do Santo Tomás, do sábio Aristóteles e do gigante Rúben Calderón Bouchet.

DO CONSERVADORISMO EM SI MESMO

Friedrich August von Hayek (1899-1992) escreveu em 1960 um artigo que se intitulava “Por que não sou conservador”. Olavo de Carvalho escreveu um, bem mais breve, intitulado “Por que não sou liberal”, quase como uma resposta. Não tenho aqui a intenção de destrinchar os vários tipos de conservadorismos e liberalismos. A razão é simples: um profundo estudo e uma análise minimamente honesta, imparcial sem o vício da visão iluminista, concluímos que tanto o conservadorismo como o liberalismo se diferenciam apenas no mesmo sentido em que a espécie se diferencia do gênero: seria como dizer que cão se diferencia do animal. O conservadorismo é fruto do liberalismo iluminista. O principal pensador conservador nos últimos anos, Roger Scruton (1944-2020. Autor muito recomendado, quase sempre sem nenhuma ressalva, pelo Olavo e seus discípulos, como Bernardo Küster, Rodrigo Gurgel, o pessoal ligado ao Brasil Paralelo, Contra os Acadêmicos etc), escreveu:

O conservadorismo como filosofia política passou a existir com o Iluminismo. Isso não seria possível sem a revolução científica, a superação do conflito religioso e o triunfo do individualismo liberal. Os conservadores, em sua maioria, reconheceram os benefícios contidos na nova concepção de cidadania que atribuiu poder ao povo e ao Estado como representante nomeado – e em parte eleito. Também reconheceram que isso envolvia uma grande inversão nos negócios do governo. Daqui em diante, observaram, a responsabilidade pública passou a vir de cima para baixo e não o contrário. Os governantes passaram a ter de responder aos governados e as responsabilidades em todos os níveis não eram mais impostas, mas admitidas (Como ser um conservador, Editora Record, 2017, p. 125).

Vê-se que Roger Scruton reconhece que o conservadorismo surge com o Iluminismo e reconhece supostos méritos do mesmo. O conservadorismo ganhará diversas formas assim como o próprio liberalismo ganhará. Todavia, há de buscar o fim do conservadorismo.  Roger Scruton não é claro nisso, dada a rejeição explícita do mesmo à escolástica. Ele escreve:

O negócio do conservadorismo não é corrigir a natureza humana ou moldá-la de acordo com alguma concepção ideal de um ser racional que faz escolhas. O conservadorismo tenta compreender como as sociedades funcionam e criar o espaço necessário para que se iam bem-sucedidas ao funcionar. O ponto de partida é a psicologia profunda da pessoa humana, Quem melhor apreendeu a sua filosofia fundamental foi Hegel, no livro Fenomenologia do espírito, em que mostra como a autoconsciência e a liberdade surgem pelo aventurar-se do Eu rumo ao Outro; como as relações de conflito e de dominação são superadas pelo reconhecimento dos direitos e deveres mútuos, e como, no decorrer disso, o indivíduo conquista não somente a liberdade de agir, mas também adquire um sentido do próprio valor e do valor dos demais. O processo pelo qual os seres humanos adquirem a própria liberdade também constrói vínculos afetivos, e as instituições da lei, do ensino e da política são parte disso – não coisas que escolhemos livremente a partir de uma posição de distanciamento, mas coisas pelas quais conquistamos nossa liberdade e sem as quais não poderíamos existir como agentes plenamente autoconscientes (loc. cit., p. 181).

Russell Kirk (1918-1994) escreve ainda:

Não sendo nem uma religião nem uma ideologia, o conjunto de opiniões designado como conservadorismo não possui nem uma Escritura Sagrada nem um Das Kapital que lhe forneça um dogma (“Os dez princípios do conservadorismo”, a tradução é do Pe. Paulo Ricardo, disponível em seu próprio site).

Todavia, devemos antes de abordar qualquer coisa, devemos definir essa coisa. Vejamos aqui a definição de João Camilo de Oliveira Torres (1915-1973):

Poderíamos definir o conservadorismo do seguinte modo: é uma posição política que reconhece que a existência das comunidades está sujeita a determinadas condições e que as mudanças sociais, para serem justas e válidas, não podem quebrar a continuidade entre o passado e o futuro (O Elogio do Conservadorismo, parte I, “Conceito de conservadorismo, Arcádia, 2017, Edição Kindle).

João Camilo prova cabalmente que o pensamento conservador não pode ser definido sem impor uma frase que na prática não significa nada. O autor continua no mesmo lugar:

… o conservador acha impraticáveis e condenadas ao suicídio todas as reformas fundadas unicamente na vontade humana, sem respeito às condições preexistentes. Podemos reformar — por meio de um processo de cautelosa adaptação do existente às novas condições — e nunca pelo estabelecimento de algo radicalmente novo (Ibid.).

Ainda logo depois:

O conservador, adaptando o antigo ao novo, sem destruir o antigo, nem negar o novo, resolvendo questões concretas de maneira específica (o que serviu para o petróleo pode não dar certo em siderurgia, por exemplo) termina criando regimes mistos e fórmulas de compromisso, plásticas e vivas, capazes de conduzir a resultados mais positivos, capazes de ir mais longe, pelo fato de irem mais lentamente. “Devagar, e sempre”, diz o provérbio conservador por excelência (libd.).

Creio que a armadilha parece já exposta. João Camilo em nenhum momento defende a Realeza Cristo como deveria ser. Outros autores católicos (João Camilo defende efusivamente o Concílio Vaticano II em seu livro) seguem esse erro que foi iniciado com Edmund Burke. Russel Kirk, seguindo esse falso princípio ensina o seguinte:

Eles [os conservadores] crêem que ordem, justiça e liberdade são produtos artificiais de uma longa experiência social, o resultado de séculos de tentativas, reflexão e sacrifício (loc. cit.).

A liberdade é decorrente da própria condição da natureza humana, justiça é uma virtude cardeal e ordem é uma parte essencial da sociedade, a sua causa formal. A causa material da sociedade é o conjunto dos homens que a compõem. A autoridade é a causa eficiente, pois é a causa que junta a causa material e formal, assim como o escultor é quem informa o mármore para que ele tenha a forma que está em sua mente. A causa final da sociedade é o mesmo de cada homem: o próprio Deus, em quem conseguimos a bem-aventurança eterna. É a obrigação da autoridade guiar a sociedade para o seu fim pois é ele também a causa eficiente de quem recebeu o poder de Deus (não, o poder não emana do povo).

Os conservadores para justificar esse pensamento falso, utilitarista, que, em última instância, coloca a ordem como causa final da sociedade (sendo que é a causa formal), fazem uma errônea analogia com o corpo humano. Kirk escreve o seguinte:

O conservador raciocina que a mudança é essencial para um corpo social da mesma forma que o é para o corpo humano. Um corpo que deixou de se renovar, começou a morrer. Mas se este corpo deve ser vigoroso, a mudança deve acontecer de uma forma harmoniosa, adequando-se à forma e à natureza do corpo; do contrário a mudança produz um crescimento monstruoso, um câncer que devora o seu hospedeiro. O conservador cuida para que numa sociedade nada nunca seja completamente velho e que nada nunca seja completamente novo. Esta é a forma de conservar uma nação, da mesma forma que é o meio de conservar um organismo vivo. Quanta mudança seja necessária em uma sociedade, e que tipo de mudança, depende das circunstâncias de uma época e de uma nação (loc. cit.).

A analogia com o corpo humano é extremamente falha. Ainda que a sociedade seja um conjunto de homens (sua causa material), não significa que a forma acidental possa mudar e, pior, considerar que a mera manutenção da mesma procurando progresso seja o fim. Esse falso princípio conservador o historiador Rúben Calderón Bouchet notou e escreve:

… tanto o liberal como o conservador são resultados da Reforma Protestante. Em clima católico tradicional, o liberalismo foi condenado e o conservadorismo, sua consequência pragmática, posto entre os férreos parênteses de uma suspeita heteropráxis. Foi mister o triunfo da heresia modernista para que o plano conservador adquirisse certa força nos países de tradição católica e se convertesse, senão em um substituto da Doutrina Social da Igreja, em um sucedâneo que abre a perspectiva de um entendimento a nível mundial com o imperialismo americano (El Conservadorismo Anglosajón, Vórtice, 2014, p. 24).

A acusação do Rúben Calderón é verificável nos escritos de Olavo de Carvalho:

Mas São Tomás já estava no céu e, no Vaticano terrestre, ninguém deu sinal de ter lido Böhm-Bawerk ou Von Mises até hoje. Daí a contradição grosseira das doutrinas sociais da Igreja, que, celebrando da boca para fora a livre iniciativa em matéria econômica, continuam a condenar o capitalismo liberal como um regime baseado no individualismo egoísta, e terminam por favorecer o socialismo, que agradece essa colaboração instituindo, tão logo chega ao poder, a perseguição e a matança sistemática de cristãos, isto é, aquilo que o dr. Leonardo Boff, referindo-se particularmente a Cuba, denominou “o Reino de Deus na Terra” (O mínimo que você precisa sabe para não ser um idiota; Editora Record, 2017, p. 211. Grifo meu).

Isso vai contra a Doutrina Social da Igreja, que é a mesma doutrina da Realeza de Cristo vista de outro ângulo. Perceba que o autor brasileiro deixa claro que, para ele, a Doutrina Social da Igreja, por condenar o liberalismo econômico, seria culpada de favorecer do socialismo. Pio XII (1976-1958) ensina que o ensinamento da Doutrina Social da Igreja:

… está definitivamente fixado quanto a seus pontos fundamentais, é suficientemente amplo para poder ser adaptado e aplicado às vicissitudes cambiantes dos povos, desde que não seja em detrimento de seus princípios imutáveis e permanentes. [Este ensinamento também] é claro em todos os aspectos, e é obrigatório, [razão por que ninguém pode] separar-se dele sem perigo para a fé e para a ordem moral [nem pode] aderir às teorias e sistemas sociais que a Igreja repudiou e contra os quais pôs seus fiéis em guarda (Discurso ao Congresso da Ação Católica Italiana de 29 de abril de 1945).

A obrigatoriedade da adesão à Doutrina Social da Igreja (que é a Realeza de Cristo numa perspectiva política e sociológica) desagrada os conservadores. Isso leva o Olavo a criticar até mesmo o Papa Leão XIII (1810-1903) como lemos abaixo:

Ao longo da nossa história intelectual, somente três correntes de pensamento lograram exercer uma influência duradoura e profunda sobre as camadas intelectuais brasileiras: o positivismo de Augusto Comte, o neotomismo de Leão XIII, o marxismo. […] Cabe uma ressalva com relação ao neotomismo: não confundi-lo com o tomismo, se por esta palavra se entende a filosofia de Sto. Tomás de Aquino. O tomismo é filosofia no sentido pleno; o neotomismo é, ao contrário, um movimento cultural e político-ideológico, em suma votado à difusão dessa filosofia, tomada como solução pronta de todos os problemas e, portanto, esvaziada de boa parte de sua substância filosófica (Nova Era e Revolução Cultural; Vide Editorial, 2014, p. 69s).

O erro do sr. Olavo de Carvalho é verificável no que ensina Sua Santidade Pio XI (1857-1939):

Mas, para mais facilmente se compreender como é que puderam conseguir que tantos operários tenham abraçado, sem o menor exame, os seus sofismas, será conveniente recordar que os mesmos operários, em virtude dos princípios do liberalismo econômico, tinham sido lamentavelmente reduzidos ao abandono da religião e da moral cristã. Muitas vezes o trabalho por turnos impediu até que eles observassem os mais graves deveres religiosos dos dias festivos; não houve o cuidado de construir igrejas nas proximidades das fábricas, nem de facilitar a missão do sacerdote; antes pelo contrário, em vez de se lhes puser embargo, cada dia mais e mais se foram favorecendo as manobras do chamado laicismo. Aí estão, agora, os frutos amargosíssimos dos erros que os Nossos Predecessores e Nós mesmo mais de uma vez temos preanunciado. E assim, por que nos havemos de admirar, ao vermos que tantos povos, largamente descristianizados, vão sendo já pavorosamente inundados e quase submergidos pela vaga comunista? (Carta encíclica Divine Redemptoris, n. 16, 19 de março de 1973. Grifos meus).

O conservadorismo é liberal e o liberalismo conduz ao indiferentismo religioso. Isso é ensinado por Dom Félix Sardá y Salvany (1844-1916). O sacerdote espanhol escreve o seguinte:

Na ordem das doutrinas o Liberalismo é heresia. Heresia é toda a doutrina que nega com negação formal e pertinaz um dogma da fé cristã. O Liberalismo doutrina nega-os a todos, primeiramente em geral, e depois a cada um em particular. Nega-os a todos em geral quando afirma ou supõe a independência absoluta da razão individual no indivíduo, e da razão social ou critério público na sociedade. Dizemos afirma, ou supõe, porque às vezes nas consequências secundárias não se afirma o princípio liberal, mas dá-se já por suposto ou admitido. Nega a jurisdição absoluta de Cristo Deus sobre os indivíduos e as sociedades, e por consequência a jurisdição delegada que sobre todos e cada um dos fiéis, de qualquer condição e dignidade que sejam, recebeu de Deus, a Cabeça visível da Igreja (O Liberalismo é Pecado, cap. III, Santa Cruz, 2016, edição Kindle). 

E depois:

O Liberalismo em todos os seus graus e aspectos está formalmente condenado pela Igreja. De modo que, além das razões de malícia intrínseca que o tornam mal e criminoso, há para todo o católico a suprema e definitiva declaração da Igreja, que como tal o há julgado e anatematizado (Ibid. cap. X).

Se o conservadorismo é parte do liberalismo, por rejeitar na prática a Religião, deve ser rejeitado integralmente. Tanto por rejeitar a verdadeira Religião como por levar ao indiferentismo. Esse indiferentismo é visível nos autores conservadores. O Olavo, por exemplo, ensina:

Que é uma religião? E a encenação ritual de um conjunto de mensagens simbólicas de importância medular para a conservação do estatuto humano do homem. As regras morais fazem parte desse grande teatro, do qual devemos participar com sinceridade e devoção, porque ele é a única fonte de vida e saúde para o espírito humano. […] A sabedoria que reside no núcleo das religiões não se entrega ao olhar malicioso. É isso o que Cristo quer dizer quando pede que sejamos como as crianças. A malícia, no entanto, é o mandamento número um da intelectualidade moderna, que nasce com Voltaire. O intelectual moderno, cheio de suspicácia e medo, teme ser enganado pelas mensagens de Moisés, de Cristo, de Maomé, do Buda, e acaba por se deixar ludibriar por mentirosos baratos como Voltaire e Marx, que o arrastam a aventuras políticas sangrentas e sem sentido. (O Imbecil Coletivo, Editora Record, 2018, p. 396).

Como bom conservador, que segue a escola dos pensadores que expusemos até aqui, o Olavo equipara a Religião verdadeiro a outras e não tem escrúpulos em colocar Nosso Senhor Jesus Cristo ao lado de servos de Satanás como Buda (cuja existência é duvidosa) e Maomé (idem). João Camilo de Oliveira Torres não hesitou, antes de Olavo, em fazer o mesmo ao elogiar Auguste Comte (!):

Augusto Comte (1798–1857) foi o pai do Positivismo, corrente filosófica que buscava explicar as leis do mundo social com critérios das ciências exatas e biológicas. Conservador sem o saber, Comte iria criar para o conservadorismo a sua norma perfeita: “Conservar melhorando” O próprio Positivismo fundamentava-se em um discurso conservador, uma vez que buscava nos vultos e heróis do passado os exemplos para organização da sociedade. Comte chegou a criticar os ateus porque eles lhe pareciam próximos da mentalidade revolucionária ou anarquista, e afastou de seu calendário positivista (1849) os personagens que, a seu ver, eram “negativos” (Lutero, Calvino, Rousseau), consagrando, ao contrário, meses e semanas a grandes congregadores de humanidade (Moisés, Buda, Maomé…) (O Elogio do Conservadorismo).

Roger Scruton, que era anglicano, ensina o mesmo quando prega um modelo de liberdade religiosa similar ao que é ensinado pelo Vaticano II:

Consideramos a religião a origem das comunidades e um conforto na vida do indivíduo. Só lhe concedemos, no entanto, um papel cerimonial na vida do Estado, desenvolvido com base em princípios puramente seculares; entre eles, o princípio da liberdade religiosa. A esfera do valor religioso está aberta para todos: podemos nos unir às igrejas e aos templos, aprender os caminhos da santidade e da retidão, desfrutar a paz, a esperança e o consolo trazidos pela religião. Devemos, todavia, dar aos demais o direito de serem diferentes (loc. cit. 212).

E ainda:

Tolerância significa estar preparado para aceitar opiniões pelas quais temos forte aversão. Do mesmo modo, democracia significa aceitar ser governado por pessoas por quem nutrimos repugnância profunda. Isso só é possível se mantivermos a confiança na negociação e no desejo sincero, entre os políticos, de compromisso com os adversários. Por essa razão, na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos é necessário que os conservadores defendam a política da solução conciliatória e protejam todas as instituições e costumes que dão voz à oposição. Isso é mais importante que o processo democrático em si, pois é a precondição para qualquer tipo de ordem política que responda aos movimentos vindos das classes mais baixas e que podem chamar o governo a prestar contas (Ibid., p. 255).

Rúben Calderón Bouchet, comentando um livro do conservador William R. Harbour expõe com muita precisão o veneno da liberdade religiosa defendida pelos conservadores:

O espírito conservador que perde o caráter revelado e único da religião tem o pé metido para sempre no terreno movediço da liberdade religiosa e o pluralismo desatado pelo princípio da reforma protestante. Ser-lhe-á muito difícil, por piedoso que se considere, cumprir com a finalidade para qual Cristo se dispôs a construir com os eleitos seu Reino definitivo. Em suma: o princípio liberal da liberdade religiosa destrói o fundamento de uma autoridade divinamente sustentada para unir todas as gentes na unidade da fé.

Os conservadores norte-americanos põem ênfase especial em distinguir-se dos liberais, no entanto, essa diferença bem observada só pode dar-se em matizes sem grande importância, pois o que distingue o liberal em matéria de religião é a sua grande tolerância e Harbour afirma que a exigência afirma que a exigência metafísica que faz dos homens seres religiosos “tem a vantagem de ajudar a sustentar o que alguns consideram um importante princípio normativo: a tolerância religiosa”. [WILLIAM R. HARBOUR, El Pensamiento Conservador, G.E.I. Colección Temas Bs. A.s., 1985, p. 52]

Tolerar é admitir algo mau para evitar outro pior. Converter a tolerância num princípio normativo de comportamento é a maneira mais clara e precisa de terminar com a religião. Esta verdadeira consequência nunca foi ignorada pelos liberais autênticos que a usaram como aríete contra a Igreja Católica. Se cada grupo humano, com pretensão de igreja, pode defender uma ideia particular de Deus, é simplesmente porque não há nenhum pacto que tenha sua origem no Criador (loc. cit. p. 44-45).

Se a liberdade religiosa é aceita, isto é, a liberdade de violar os três primeiros mandamentos da Lei de Deus, outras liberdades decorrerão disso. Como a liberdade de expressão (no seu pior sentido. Como o mesmo Scruton ensina:

A liberdade de considerar e de expressar opiniões, por mais que sejam ofensivas para alguns, foi considerada, desde Locke, condição sinequa non de uma sociedade livre. Essa liberdade foi consagrada na Constituição norte-americana, defendida por John Stuart Mill perante os moralistas vitorianos e acolhida, em nossa época, pelos dissidentes que viviam sob as ditaduras comunista e fascista. Tanto se tornou uma pedra de toque que os comentaristas mal conseguem distinguir liberdade de expressão e democracia e consideram ambas como posições padrão da humanidade –  posições para as quais retornamos, caso sejam removidos todos os poderes opressores que nos fazem oposição. Não parece ocorrer às pessoas que, agora, a ortodoxia, a uniformidade e a perseguição aos dissidentes definem a posição padrão da humanidade ou que não há razão para pensar que as democracias sejam, a esse respeito, tão diferentes das teocracias islâmicas ou dos Estados totalitários de um único partido (loc. cit., p. 253).

Esta doutrina de Scruton (e de todos os conservadores) contradiz totalmente o que ensina a Doutrina Católica. Percebam que para o conservador, a restrição à liberdade de expressão é comparável às ditaduras totalitárias. Pio IX (1792-1878), juntamente com seu predecessor Gregório XVI, ensina o seguinte, reproduzindo in extenso:

… com esta ideia do governo social, absolutamente falsa, não hesitam em consagrar aquela opinião errônea, em extremo perniciosa à Igreja Católica e à saúde das almas, chamada por Gregório XVI, Nosso Predecessor de feliz memória, delírio (Mirari Vos), isto é, que “a liberdade de consciências e de cultos é um direito próprio de cada homem, que todo Estado bem constituído deve proclamar e garantir como lei fundamental, e que os cidadãos têm direito à plena liberdade de manifestar suas ideias com a máxima publicidade – seja de palavra, seja por escrito, seja de outro modo qualquer, sem que autoridade civil nem eclesiástica alguma possam reprimir em nenhuma forma liberdade tão funesta”. Ao sustentar afirmação tão temerária, não pensam nem consideram que com isso pregam a “liberdade de perdição” (S. Agost., Ep. 105, al. 166), e que, “se se permite sempre a livre manifestação das opiniões humanas, nunca faltarão homens, que se atrevam a resistir à verdade, e colocar a sua confiança na loquacidade da sabedoria humana; vaidade em extremo prejudicial, e que a fé e a sabedoria cristã devem evitar cuidadosamente, segundo determinou o mesmo Cristo Nosso Senhor” (S. Leão Magno, Ep. 14, a. 133) (Carta encíclica Quanta Cura, 8 de dezembro de 1864).

E depois condena solenemente:

Em meio de esta tão grande perversidade de opiniões depravadas, Nós, com plena consciência de Nossa missão apostólica, e com grande solicitude pela religião, pela sã doutrina e pela saúde das almas a Nós divinamente confiadas, assim como até pelo próprio bem da sociedade humana, temos julgado necessário levantar de novo Nossa voz apostólica. Portanto, todas e cada uma das perversas opiniões e doutrinas determinadamente especificadas nesta Carta, com Nossa autoridade apostólica as reprovamos, proscrevemos e condenamos; e queremos e mandamos que todas elas sejam tidas pelos filhos da Igreja como reprovadas, proscritas e condenadas (Carta encíclica Quanta Cura, 8 de dezembro de 1864).

Leiamos também o que ensina Leão XIII sobre esse assunto, que aqui reproduzo extensamente:

… agora continuemos estas considerações a respeito da liberdade de exprimir pela palavra ou pela imprensa tudo o que se quiser. Se esta liberdade não for justamente temperada, se ultrapassar os devidos limites e medidas, desnecessário é dizer que tal liberdade não é seguramente um direito. Pois o direito é uma faculdade moral, e, como dissemos e como se não pode deixar de repetir, seria absurdo crer que esta faculdade cabe naturalmente, e sem distinção nem discernimento à verdade e à mentira, ao bem e ao mal. Para a verdade e o bem há o direito de propagá-los no Estado com liberdade prudente, a fim de que possam aproveitar o maior número; mas as doutrinas mentirosas, que são para o espírito a peste mais fatal, assim como os vícios que corrompem o coração e os costumes, é justo que a autoridade pública empregue toda a sua solicitude para reprimi-los, a fim de impedir que o mal se alastre para ruína da sociedade. Os extravios dum espírito licencioso que, para a multidão ignorante, se convertem facilmente em verdadeira opressão, devem justamente ser punidos pela autoridade das leis, não menos que os atentados da violência cometidos contra os fracos. E esta repressão é tanto mais necessária, quanto é impossível ou dificílimo à parte, sem dúvida, mais numerosa da população precaver-se contra os artifícios de estilo e as sutilezas de dialética, principalmente quando tudo isso lisonjeia as paixões. Concedei a todos a liberdade de falar e escrever, e nada será poupado, nem mesmo as verdades primárias, esses grandes princípios naturais que se devem considerar como um nobre patrimônio comum a toda a humanidade. Assim, a verdade é, pouco e pouco, invadida pelas trevas e, o que muitas vezes sucede, estabelece-se com facilidade a dominação dos erros mais perniciosos e mais diversos. Tudo o que a licença então ganha perde a liberdade; pois ver-se-á sempre a liberdade crescer e consolidar-se à medida que a licença seja mais refreada. Mas se se trata de matérias livres, que Deus deixou entregues às discussões dos homens, a todos é permitido emitir sobre elas a sua opinião e exprimi-la livremente. A natureza não se opõe a isto, porque com esta liberdade os homens não são levados a oprimir a verdade, antes é ela muitas vezes ocasião de procurá-la e fazê-la conhecer (Carta encíclica Libertas Praestantissimum, 20 de junho de 1888).

Parece que isso basta para rejeitar absolutamente o conservadorismo como um inimigo pragmático da Realeza de Cristo. Na prática, ao contrário do que ensina João Camilo de Oliveira Torres, Russell Kirk. Olavo de Carvalho etc, o conservadorismo é um progressismo em marcha lenta. É uma ideologia que visa conservar os princípios e os frutos da Revolução sem se aprofundar. Esta é a consequência prática do conservadorismo.

DA REALEZA DE CRISTO, A RESPOSTA AO CONSERVADORISMO E TODOS OS OUTROS ERROS

A Doutrina da Realeza de Cristo (recomendo para melhor aprofundamento o livro do JEAN OUSSET, Para Que Él Reine, La Ciudad Católica, 1961, 954 p.)fundamenta-se no essencial fato de que o fim último da sociedade é a mesma do de cada homem. Foi exatamente isso que o Cardeal Pie de Poitiers (1815-1880) quis dizer quando ensinou o seguinte:

Para os povos como para os indivíduos, para as sociedades modernas como para as sociedades antigas, para as repúblicas como para as monarquias, não há sob o céu outro nome dado aos homens em que eles possam ser salvos além do nome de Jesus Cristo. (Discours au Président de la République, 1870).

Sua Santidade Pio XI enfatizará mais ainda essa doutrina:

Com a celebração ânua desta festa hão de relembrar-se, outrossim, os Estados que aos governos e à magistratura incumbe a obrigação, bem assim como aos particulares, de prestar culto público a Cristo e sujeitar-se às suas leis. Lembrar-se-ão também os chefes da sociedade civil do juízo final, quando Cristo acusará aos que o expulsaram da vida pública, e a quantos, com desdém, o desprezaram ou desconheceram; de tamanha afronta há de tomar o Supremo Juiz a mais terrível vingança; seu poder real, com efeito, exige que o Estado se reja totalmente pelos mandamentos de Deus e os princípios cristãos, quer se trate de fazer leis, ou de administrar a justiça, quer da educação intelectual e moral da juventude, que deve respeitar a sã doutrina e a pureza dos costumes (Carta encíclica Quas Primas, 11 de dezembro de 1925).

Mons. Marcel Lefebvre (1905-1991) cita um diálogo entre um bispo (Cardeal Pie) e um imperador revolucionário (Luís XVIII), que transcrevo:

Apresso-me em fazer justiça às disposições religiosas de Vossa Majestade e sei reconhecer, Senhor, os serviços que ela prestou a Roma e à Igreja, principalmente nos primeiros anos de seu governo. Talvez a Restauração não tenha feito mais do que vós. Deixe-me acrescentar que nem vós nem a Restauração fizeram por Deus o que deveria ser feito, porque nem um nem outro restaurou seu trono, porque não renegaram os princípios da Revolução, cujas consequências práticas, entretanto, combateis. Porque o evangelho social em que se inspira o Estado ainda é a declaração dos direitos do homem, que não é mais do que a negação formal dos direitos de Deus.

É  direito de Deus governar tanto os Estados como os indivíduos. Não é outra coisa o que Nosso Senhor veio procurar na terra. Ele deve reinar inspirando as leis, santificando os costumes, esclarecendo o ensino, dirigindo os conselhos, regulando as ações tanto dos governos como dos governados. Onde Jesus Cristo não exerce este reinado, há desordem e decadência.

Agora tenho o direito de vos dizer que Ele não reina entre nós, e que nossa Constituição está longe de ser a de um Estado cristão e católico. Nosso direito público estabelece que a religião católica é a da maioria dos franceses, mas acrescenta que os outros cultos têm direito a uma igual proteção. Não é isto proclamar que a Constituição protege igualmente a verdade e o erro? Sabeis, senhor, o que Jesus Cristo responde aos governos que se fazem culpados de tais contradições? Jesus Cristo, Rei do céu e da terra lhes responde: “e eu vos digo, governos que vos sucedeis derrubando-vos uns aos outros, Eu também vos dou igual proteção. Dei-a ao imperador vosso tio, aos Bourbons, a Luís Felipe, à República, e a vós também igual proteção será dada”.

E o imperador interroga o bispo: “Ainda pensais que nossa época comporta tal estado de coisas, e que é chegado o momento de estabelecer este reino exclusivamente religioso que me pedis? Não vos parece, Monsenhor, que seria desencadear todas as paixões ruins?”.

“Senhor, quando os grandes políticos como Vossa Majestade objetam que não é chegado o momento, só me resta inclinar-me, porque não sou um grande político. Mas sou bispo, e como bispo lhe respondo: se não chegou o momento de reinar para Jesus Cristo, então também não chegou, para os governos, o momento de perdurar”. (Pe. Théotime de Saint Just, La Royauté Sociale de N. S. Jesus-Christ selon le Card. Pie, Beauchesne, Paris, 1925, 2ª ed., pp. 117-121. Apud Mons. MARCEL LEFEBVRE; Do Liberalismo à Apostasia, Editora Permanência, 2013, pp. 32-33).

O ensinamento acima é cabal. Isso ainda sem citar documentos como a bula Unam Sanctam, de Bonifácio VIII (1230-1303); cartas encíclicas como Immortale Dei e Diuturnum Illud, de Leão XIII, entre outros (cf. por exemplo, ainda, Laududum in Lusitania, de São Pio X). Já tratei em outros lugares (cf. OS ERROS DE HANS-HERMANN HOPPE e O PENSAMENTO DIABÓLICO DE MURRAY ROTHBARD) a própria natureza da sociedade e do estado para refutar a doutrina liberal em seu modo mais extremo (chamado libertarianismo ou anarcocapitalismo). Convido o leitor a ler esses escritos passados. Todavia, falta ainda explicar a questão da causa final da sociedade.

A causa final da sociedade deve ser necessariamente a mesma de cada homem, diferenciando apenas noutras três. Como dito acima, a causa eficiente da sociedade é a autoridade, que junta a causa formal (ordem) e material (conjunto de homens). Assim, razão por que a causa material da sociedade é um conjunto de homens, a causa final dessa sociedade deve identificar-se com a causa final de cada homem. Não apenas cada homem em particular deve buscar o seu fim último, a sua causa final, como também o governante deve cooperar com a busca desta fim último, da causa final; o governante deve em suma ajudar na busca da salvação do seu povo sob pena de padecer a condenação eterna.

Mesmo o pagão Aristóteles (384 a.C.-322 a.C.) pois, ele sabia que o homem não poderia ser um fim em si mesmo, que seu fim seria, por meio de uma vida contemplativa, isto é, alcançar uma vida em que o homem alcance uma vida digna de ser chamada divina (Ética a Nicômaco, 1177b27-32). Aristóteles conclui que assim, o governante deve ter a obrigação de dispor a pólis de uma forma que ajude o homem a alcançar esse fim. O homem não pode alcançar o seu fim último sozinho, mas apenas em sociedade, dada a sua natureza. Por isso, Aristóteles chama o homem de animal político (e.g. em Ética a Nicômaco, 1097b7-12 e Política, 1253a2-5 etc). Assim, a pólis (cidade) seria uma sociedade perfeita por contém em si mesma todos os meios para que o homem alcance o seu fim natural.

Santo Tomás, corretamente, não divergirá de Aristóteles. Todavia, bem sabe que o Filósofo não recebeu as luzes sobrenaturais da Fé para que alcance o conhecimento da Revelação. Deus poderia ter de fato criado o homem apenas para viver segundo sua natureza para alcançar um fim meramente natural. Assim, Aristóteles estaria totalmente correto quanto o fim mesmo da sociedade. Todavia, após a queda dos nossos primeiros pais com o pecado original, não foi o que se deu e esse tipo de sociedade não seria mais possível nem mesmo no ideal de Aristóteles. Até porque o próprio fim último do homem para Aristóteles é para uma elite e não para todos. Com a promessa do Redentor e a sua vinda e sua Paixão, o fim último do homem assim, como sabemos pela luz sobrenatural da Fé, é para todos, isto é, o próprio Deus, que O conheceremos perfeitamente pela visão beatífica se nos dignarmos de alcançar a Salvação eterna. Assim sendo, é a obrigação do governante governar a pólis de tal maneira que ajude cada homem (e ele mesmo) a alcançar esse fim. Para tal, o poder temporal deve submeter-se ao espiritual como ensina de forma solene a bula Unam Sanctam, do Papa Bonifácio VIII, dando a definitiva interpretação da passagem dos dois gládios (Lc 22, 38).

Resumindo: no modelo político ideal, o poder temporal submete-se ao espiritual para que o governante ajude os homens a alcançar a salvação eterna. Para tal, a sociedade torna-se membro da Igreja a título de pessoa moral.

Leão XIII, com efeito ensina:

Visto, pois, que é necessário professar uma religião na sociedade, deve-se professar a única que é verdadeira e que se reconhece, sem dificuldade, pelo menos nos países católicos, pelos sinais de verdade que com tão vivo fulgor ostenta em si mesma. Esta religião, os chefes de Estado a devem, pois, conservar e proteger, se querem, como é obrigação sua, prover prudente e utilmente aos interesses da comunidade. Pois o poder público foi estabelecido para utilidade daqueles que são governados, e conquanto ele não tenha por fim próximo senão conduzir os cidadãos à prosperidade desta vida terrestre é, contudo, para ele um dever não diminuir, mas pelo contrário aumentar, para o homem, a faculdade de atingir esse bem supremo e soberano, no qual consiste na eterna felicidade dos homens: o que se torna impossível sem a religião (loc. cit. Grifos meus).

O conservadorismo, ao contrário, se a afasta dessa doutrina confundindo a forma e o fim e crê que o governante deve governar conservando a continuidade do que deu certo e reformando o que supostamente precisa ser reformando e removendo o que deu errado não importando se o que deu certo é um erro e que a remoção é um acerto. Ou seja, a sociedade não tem um fim, mas é um fim em si mesmo para o conservador. Tudo se devendo ao naturalismo, pois o conservador é aquele capitão de um navio que foca no bem-estar dos passageiros sem se preocupar com o destino do navio.

Assim sendo há de tirar as devidas conclusões e todos esses fatos mostram que devemos emitir três sentenças ao conservadorismo:

1. Por conta da confusão entre causa formal e causa final da sociedade, contradizendo a razão natural (tal como ensina Aristóteles) e o que ensinam os teólogos (especialmente Santo Tomás de Aquino) é ERRÔNEO FILOSÓFICA e TEOLOGICAMENTE.

2. Por afastar-se da Doutrina Social da Igreja e da Realeza de Cristo (ambas são o mesmo visto de ângulos diferentes) e mesmo opor-se em diversos pontos, contradizendo diversos documentos magisteriais, é HERÉTICO.

3. Por sua aparente pretensão de substituir a Doutrina Social da Igreja e a Realeza de Cristo, é SUSPEITO DE SER DIABÓLICO.

Está vetado, portanto, o conservadorismo ao católico, pois não passa de uma armadilha sutil que afasta o católico da reta doutrina.

CONCLUSÃO: DISCERNINDO O MAL MENOR, SE É LÍCITO EM ALGUM CASO VOTAR EM UM CONSERVADOR

Os conservadores fracassaram em duas importantes eleições recentemente (entre 2020 e 2022), nos EUA, Donald Trump perdeu para o democrata Joe Biden. No Brasil, Jair Messias Bolsonaro é derrotado pelo Lula. A razão disso é por conta da incoerência interna que a direita possui. Por diabólico que a esquerda seja, ela é coerente e faz exatamente o que se espera dela. A direita não faz isso justamente por ser uma falsa oposição a ela e não conseguir provar isso. Tanto Bolsonaro como Trump não provaram o que são. Historicamente, vemos que assim foi, com os governos criminosos envolvendo o Partido Conservador do Reino Unido e o Partido Republicano nos Estados Unidos, tal como noutros países.

Que o conservadorismo seja um mal menor meramente local e momentâneo (pois o Partido Conservador britânico, por exemplo, é progressista em relação a certos políticos ditos conservadores no Brasil) em relação à política dos progressistas concedemos.

De fato, convém, o conservadorismo é uma revolução avançada em potência com relação aos progressistas e esquerdistas. Todavia, os políticos conservadores não devem ser apoiados como um bem porque não o são. Muito pelo contrário, como vemos aqui. Substancialmente, não há diferença.

Os políticos conservadores são meramente um freio para um mal imediato. Justamente por isso não devem ser apoiados como bem, pois se forem apoiados, os que não compreendem bem os princípios aqui apresentados pensarão que o outro lado está com a razão. Ora, vemos que tanto os conservadores (que são “de direita”) como os progressistas (“de esquerda”) sustentam a Revolução de formas diferentes. O bem não é nem um e nem outro, mas os que buscam o ideal católico, que é a Realeza de Cristo. Enquanto não tiver isso, teremos que dançar conforme a música sem apoiar ninguém como um bem, apenas discernindo um mal menor (cf. A MORALIDADE DO VOTO: É PERMITIDO VOTAR NO MENOR DE DOIS MALES?).

Vemos assim que nesse contexto de democracia liberal, não há política boa. O católico não deve ser conservador como vimos, nem de direita, nem progressista, nem de esquerda, nem centrista, nem liberal, nem fascista, nem nazista, nem comunista etc. O católico não deve carregar nenhum rótulo porque o católico tem no seu ideal o Reino de Deus, a Jerusalém Celeste. Nesse vale de lágrimas, o católico busca, na realidade o que mais favorecer o exercício de sua religião.

No seu exercício cívico, o católico pode até votar em um conservador, como dito acima, mas jamais ser um. Ser conservador, como concluímos, é deixar de ser católico. É indubitavelmente apostatar.

Um comentário em “A ARMADILHA DO CONSERVADORISMO

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