Padre Frei Réginald Garrigou-Lagrange, O.P.
1932
Uma das questões vitais que mais deve interessar a todas as almas, qualquer que seja o estado em que se encontrem, é a da boa morte, tema sobre o qual Santo Agostinho escreveu um de seus últimos e mais belos livros, De dono perseverantiæ, onde expõe seu pensamento definitivo sobre o mistério da graça.
Esta questão vital tem sido interpretada de maneiras diferentes e radicalmente opostas: por um lado, pelos semipelagianos; e, por outro, pelos protestantes e jansenistas. As opiniões contrárias desses hereges deram à Igreja a oportunidade de apreciar a doutrina relacionada ao tema debatido, por meio da qual veio a ser revelada a elevação da verdade, em meio e acima dos erros extremos.
Façamos uma breve revisão dos erros citados, para melhor compreender por contraste o valor da verdade e apreciar com mais precisão a graça da boa morte. Mais tarde iremos enunciar o caminho para obtê-la.
I. A doutrina da Igreja e os erros contrários.
Os semipelagianos afirmam que, sem a ajuda da graça, o homem pode alcançar o initium fidei et salutis, o início de sua sã fé e boa vontade, que é então consolidada pelo Senhor. Não é Deus quem dá o primeiro passo em direção ao pecador para convertê-lo, mas o próprio pecador é quem primeiro se volta para Deus. De acordo com estes princípios, os semipelagianos sustentavam que o homem, uma vez justificado pela graça, pode perseverar até a morte sem o auxílio de uma graça especial; basta, diziam, que subsista o initium salutis, que é a boa vontade natural, para que o justo persevere até o fim.
Isso equivale a afirmar, não só que Deus quer salvar os homens, mas também que quer salvar a todos igualmente, e que é mera testemunha, e não autor daquilo que distingue o justo do ímpio: do initium salutis e da boa disposição final, enquanto existe neste e não naquele, em Pedro e não em Judas.
Mas sustentar essa opinião era negar o mistério da predestinação e esquecer as palavras de Jesus Cristo: “Ninguém pode vir a mim, se o Pai que me enviou, não o atrair” (João 6, 44), que se aplicam ao primeiro e último impulso de nossos corações em direção a Deus. “Sem mim nada podeis fazer”, disse também Nosso Senhor (João 15, 5). E, como notou o Segundo Concílio de Orange contra os semipelagianos, São Paulo acrescentou: “Quem é que te distingue? Que tens tu, que não recebestes?” (1Cor. 4, 7). “Não somos suficientes por nós mesmos para conceber qualquer pensamento útil a nossa salvação” (2Cor. 3, 5), e menos ainda um desejo saudável, por menor que seja, quer primeiro ou último.
Santo Agostinho também demonstrou que a primeira e a última graças são particularmente gratuitas; a primeira graça preveniente não pode merecer nem ser devida a um bom movimento natural, pois a graça santificante é o princípio do mérito, um dom gratuito, como o próprio nome indica, e uma vida completamente sobrenatural, não só para o homem, mas também para o anjo. Santo Agostinho também demonstrou que a última graça, a da perseverança final, é um dom especial, a graça especial dos eleitos, que ninguém pode tirar das mãos do Pai, como disse Nosso Senhor, “nemo potest rapere eos de manu Patris mei” (João 10, 29). E acrescentou que, quando esta graça é concedida, é por pura misericórdia; e se, ao contrário, não for concedida, é devido à justa punição pelas faltas, geralmente repetidas, que afastaram a alma de Deus, como temos na morte do bom e do mau ladrão.
Para Santo Agostinho, dois grandes princípios prevalecem nesta questão. A primeira é que não apenas os eleitos são conhecidos de antemão, mas também mais amados por Deus. São Paulo já havia dito: “Quem é que te distingue? Que tens tu, que não recebestes?” (1Cor. 4, 7). E posteriormente o Doutor Angélico: “Sendo o amor de Deus a causa de todo bem, ninguém seria melhor que o outro, se não fosse mais amado por Deus” (Ia, q. 20, a. 3).
O outro princípio claramente formulado por Santo Agostinho é que Deus nunca ordena o impossível; mas, quando ordena algo, manda-nos fazer o que está ao nosso alcance e pedir a graça necessária para cumprir o que não podemos: “Deus impossibilia non jubet, sed jubendo monet et facere quod possis et petere quod non possis”. Estas palavras de Santo Agostinho (De Natura et gratia, c. 43, no. 804) são citadas no Concílio de Trento (Denzinger, no. 804); delas pode-se deduzir que por puro amor Deus quer fazer e realmente torna possível a todos a salvação ou o cumprimento de seus preceitos; no que diz respeito aos eleitos, Ele os faz cumprir até o fim.
Como conciliar estes dois grandes princípios, tão verdadeiros e incontestáveis? Nenhuma inteligência criada, humana ou angélica, é suficiente para isto, a menos que seja primeiro iluminada pela visão beatífica. Seria preciso compreender como na Divindade se conciliam a Misericórdia infinita, a Justiça infinita e a Liberdade soberana; seria preciso ter a visão imediata da essência divina.
Estes dois princípios que Santo Agostinho opôs ao semipelagianismo foram substancialmente aprovados, como se sabe, pelo Segundo Concílio de Orange. Concordamos, pois, que a boa morte é uma graça especial, própria dos eleitos.
Ao contrário dos semipelagianos, os protestantes e os jansenistas, negando o segundo princípio de Santo Agostinho, falsearam o primeiro. Sob o pretexto de afirmar o mistério da predestinação, negaram a vontade salvífica universal e sustentaram que Deus às vezes ordena o impossível, e que no momento da morte a fidelidade aos preceitos divinos não é possível para todos.
É conhecida a primeira proposição retirada da obra de Jansênio (Denzinger, no. 1092) (153): Alguns dos mandamentos de Deus são impossíveis até mesmo para os justos; e não só para os negligentes, adormecidos ou privados do pleno uso da razão e da vontade, mas também para os que desejam cumprir os preceitos e se esforçam por praticá-los, iustis volentibus et conantibus. Mesmo para eles é impossível cumprir alguns preceitos, porque lhes falta a graça com que os poderiam cumprir.
Proposição desoladora, que mostra claramente a enorme distância que separa o jansenismo da verdadeira doutrina de Santo Agostinho e Santo Tomás: “Deus impossibilia non iubet”. Erro tão grave leva a negar a justiça divina e, consequentemente, o próprio Deus; escusado será dizer que nele não há lugar para a misericórdia divina ou para a graça suficiente que é oferecida a todos, nem para a verdadeira liberdade humana (libertas a necessitate). Por fim, se isto fosse verdade, o pecado seria inevitável e, pelo mesmo motivo, não seria mais pecado, nem poderia ser punido eternamente sem crueldade.
Os mesmos princípios errôneos levaram os protestantes a defender que não só a predestinação é gratuita, mas que as boas obras nem são necessárias para a salvação dos adultos, bastando a fé. De onde vem a frase de Lutero: “Pecca fortiter et crede fortius”. Peque fortemente, mas creia ainda mais fortemente na aplicação dos méritos de Cristo e na sua predestinação. Isto já não é mais esperança, mas uma presunção imperdoável; porque o jansenismo e o protestantismo oscilam entre a presunção e o desespero, sem encontrar a verdadeira esperança cristã e a caridade.
Contra esta heresia o Concílio de Trento (sess. VI, cap. 13 e cânon 16; Denzinger, nos. 806 e 826) definiu: “Embora todos devamos ter firme esperança em Deus, ninguém pode ter certeza absoluta sem revelação especial de que perseverará até o fim”. O Concílio cita a este respeito as palavras de São Paulo: “Portanto, meus caríssimos, visto que sempre fostes obedientes, trabalhai com temor e tremor… pois Deus é quem opera em vós não só o querer, mas o agir segundo a sua boa vontade” (Fp. 2, 12). “Aquele que pensa estar de pé, tenha cuidado para não cair” (I Cor. 9, 12). Ponha a sua confiança no Todo-Poderoso, o único que pode levantar os caídos e preservar os justos, “qui potens est eum, qui stat, statuere” (Rm. 14, 4), para que permaneça de pé no meio de um mundo corrupto e perverso.
Desta forma, a Igreja mantém a doutrina do Evangelho acima das divagações do erro, e no caso de que estamos tratando, ao contrário das heresias do semipelagianismo e do protestantismo. Por um lado, os eleitos são mais amados que os outros; mas, por outro lado, Deus nunca manda o impossível e quer, por amor, tornar realmente possível a todos a fidelidade aos seus preceitos.
Donde se conclui, ao contrário do semipelagianismo, que a graça de uma boa morte é um dom especial (154) e, ao contrário do protestantismo e do jansenismo, que, entre os adultos, só os que lhe resistem são privados dos últimos socorros, resistindo à graça suficiente que lhes é oferecida, como aconteceu com o mau ladrão, tão próximo de Cristo Redentor (155).
Assim sendo, como podemos obter esta importante graça da boa morte? Podemos merecê-la? E se, propriamente falando, não é possível merecê-la, podemos ao menos obtê-la por meio da oração? Quais devem ser as condições da oração?
Iremos apresentar estes dois pontos, tomando como guia Santo Tomás (Ia IIae, q. 114, a. 9).
II. Podemos merecer
a graça da boa morte?
Podemos merecê-la no sentido próprio da palavra mérito, que implica um direito à recompensa divina?
Em primeiro lugar, a perseverança final ou boa morte nada mais é do que a continuação do estado de graça até o momento da morte, ou converter-se no último momento, é a conjunção ou união do estado de graça e a morte. Em suma, a boa morte é a morte em estado de graça, a morte dos predestinados ou eleitos.
Entende-se por que o Segundo Concílio de Orange o declarou um dom especial (156), e por que o Concílio de Trento expressou sua gratuidade a dizer que “este dom não pode ser obtido senão daquele que é poderoso para sustentar o que está de pé e erguer o caído” (157).
Ora, o que o homem pode merecer, embora venha principalmente de Deus, não vem somente dEle, mas também de nossos méritos que implicam direito à recompensa divina. Portanto, o justo deve dizer humildemente a si mesmo: realmente não tenho o direito de receber a graça da perseverança final.
Santo Tomás esclarece esta verdade por meio de uma razão tão simples quanto profunda, que é comumente admitida na Igreja (158) (cf. Ia IIae, q. 144, a. 9). Não é inútil deter-nos um momento nela, pois é de grande ajuda a permanecermos na humildade.
O princípio do mérito, diz Santo Tomás, não pode ser merecido, “principium meriti sub merito non cadit”; porque uma causa, seja física ou moral, como o mérito, não pode ser sua própria causa. O mérito, que é um ato que dá direito a uma recompensa, não pode obter o princípio do qual procede. Esta é a mesma evidência: o princípio do mérito não pode ser merecido.
Ora, o dom da perseverança final nada mais é do que o estado de graça preservado ou recuperado na hora da morte; e o estado de graça, produzido e preservado por Deus, é o próprio princípio do mérito para a salvação: é o princípio que faz com que nossos atos mereçam o aumento da graça e da vida eterna. Sem o estado de graça e sem a caridade, que nos faz amar efetivamente a Deus mais do que a nós mesmos, ao menos com amor de estima, não haveria direito a uma recompensa sobrenatural em nossos atos salutares; porque esses atos, assim como os que precedem a justificação, não seriam proporcionados a tal recompensa; Não seriam atos de um filho adotivo de Deus, de um amigo de Deus, de um herdeiro, de um co-herdeiro de Cristo, como diz São Paulo. Viriam de uma alma que ainda está longe da meta final devido ao pecado mortal, de uma alma que não tem direito à vida eterna. É por isto que São Paulo escreve (1Cor. 13): “Se eu não tiver caridade, nada sou, nihil sum… nihil mihi prodest”; sem o estado de graça e sem a caridade, minha vontade está separada de Deus, e pessoalmente não posso ter direito a recompensa sobrenatural, nem mérito algum para a salvação.
Em suma: o princípio do mérito é o estado de graça e perseverança nele; portanto, o princípio do mérito não pode ser merecido.
Se não podemos merecer o primeiro efeito da graça santificante, o mesmo se deve dizer da sua conservação, que é a continuação do primeiro efeito e não uma ação divina diversa. Assim diz Santo Tomás (Ia, q. 104, a. 1, ad. 4): “A conservação das criaturas por Deus não é uma nova ação divina, mas uma continuação da ação criadora”. A conservação do estado de graça não pode, pois, ser mais merecida que a sua primeira produção.
A esta profunda razão, muitos teólogos acrescentam outra, que confirma a primeira.
O mérito propriamente chamado de condigno, i.e., baseado na justiça, supõe a promessa divina da recompensa por uma determinada boa obra. Ora, Deus nunca prometeu perseverança final ou preservação do pecado da impenitência final para aqueles que por mais ou menos tempo guardam seus mandamentos. Mais ainda, a perseverança final consiste precisamente na fidelidade até à morte; Portanto, não pode ser merecida por si mesma, pois nesse caso ela mereceria a si mesma. Assim voltamos à razão fundamental: que o princípio do mérito não pode ser merecido. O que se aplica também, guardadas as devidas proporções, ao mérito de congruo, que está nos direitos de amizade que nos une a Deus e também tem seu início no estado de graça (159).
Com isto queremos dizer que o estado de graça e a sua conservação nos provém da Misericórdia divina, e não da Justiça.
Não há dúvida de que o justo pode merecer a vida eterna, que é o termo e não o princípio do mérito. Para que a obtenha, também é necessário que não perca seus méritos por pecado mortal cometido antes de morrer. Não temos o direito de ser preservados do pecado mortal em virtude de nossos atos de caridade. Só a Misericórdia nos liberta dele. Eis aqui um fundamento muito firme da humildade cristã.
A esta doutrina comumente admitida pelos teólogos, uma objeção bastante especiosa é geralmente feita.
Quem merece mais, dizem eles, pode merecer menos. Ora, o justo pode merecer a vida eterna, que é mais do que a perseverança final. Pode, portanto, merecer esta última.
Respondemos com Santo Tomás (ibid., ad.2 e 3): Quem pode fazer mais, também pode fazer menos, na mesma ordem, e em nenhum outro caso. Ora, há aqui uma diferença entre a vida eterna e a perseverança final: a vida eterna não é o começo do ato meritório, mas o seu termo; ao passo que a perseverança final consiste no estado de graça continuado, que, como já dissemos, é o princípio do mérito.
Ainda insistem: Mas quem pode merecer o fim, também pode merecer os meios. É assim que a perseverança final ou boa morte é o meio necessário para alcançar a vida eterna; portanto, a primeira pode ser merecida tanto quanto a última.
Os teólogos costumam responder negando a maior, tomada em sentido geral. Os méritos são efetivamente meios para obter a vida eterna, mas não são merecidos; basta poder obtê-los por outros recursos. Da mesma forma, podemos obter a graça da perseverança final por outros meios que não o mérito: por exemplo, através da oração, que não se dirige à Justiça de Deus como mérito, mas à Misericórdia.
Eles insistem mais uma vez: Mas se não se pode merecer a perseverança final, também não se pode merecer a vida eterna, que se alcança por meio dela.
Conforme o que já foi dito, devemos responder: o justo pode merecer a vida eterna por qualquer ato de caridade, mas depois pode perder seus méritos por pecado mortal; e só receberá de fato a vida eterna se não perder seus méritos ou [se] misericordiosamente os recuperar pela graça da conversão. Donde diz o Concílio de Trento (sess. 6, cap. 16 e cân. 32) que o justo pode merecer receber a vida eterna, si in gratia decesserit, se morrer em estado de graça.
Com isto voltamos ao que dizia Santo Agostinho e depois Santo Tomás: se nos é concedido o dom da perseverança, é por misericórdia; e se Deus não no-lo concede, é em justo castigo pelas faltas, geralmente repetidas, que distanciaram a alma de Deus.
Uma infinidade de consequências especulativas (160) e práticas pode ser deduzida disso. Concentremo-nos apenas na humildade, que deve acompanhar o nosso confiante esforço para alcançar a salvação eterna.
O que dissemos é certamente muito terrível; mas o que nos resta dizer é muito consolador.
III. Como obter a graça da
boa morte por meio da oração?
Quais as condições
que a oração deve ter?
Se, propriamente falando, não podemos merecer o dom da perseverança porque não podemos merecer o princípio do mérito, ao menos isso pode ser alcançado por meio da oração, que não é dirigida à Justiça de Deus, como o mérito, mas à Misericórdia.
Nem tudo o que obtemos através da oração é mérito nosso; Por exemplo, o pecador em estado de morte espiritual, por meio da graça atual, pode requerer e obter a graça santificante ou habitual, mas não pode merecê-la, pois é o princípio do mérito.
O mesmo acontece com a graça da perseverança final: não podemos merecê-la propriamente falando, mas podemos obtê-la para nós e para os outros através da oração (Santo Tomás, ibid., ad. I). Também podemos e devemos preparar-nos para receber esta graça através de uma vida edificante.
Certamente seria uma negligência desastrosa e sem sentido, incuria salutis, não pedir a graça de uma boa morte e não se preparar para ela, mesmo que os quietistas digam o contrário.
Por isso Jesus Cristo ensinou a dizer no Pai Nosso: “Não nos deixes cair em tentação, mas livra-nos do mal”. E a Igreja nos manda dizer todos os dias: “Santa Maria, Mãe de Deus, rogai por nós, pecadores, agora e na hora de nossa morte. Assim seja”.
Será possível, pela oração,
alcançar infalivelmente
esta graça da boa morte?
A teologia, apoiando-se na promessa do Senhor: “Petite et accipietis”, ensina-nos que a oração acompanhada de certas condições alcança infalivelmente os bens necessários à salvação e, portanto, também a última graça. Mas quais são essas condições exigidas para uma oração infalivelmente eficaz? Diz-nos Santo Tomás (IIa IIae, q. 83, a. 15, ad. 2): “São quatro as condições: deve-se pedir para si os bens necessários à salvação, com piedade e perseverança”.
Com efeito, conseguimos com mais certeza quando pedimos por nós mesmos do que quando intercedemos por um pecador, que talvez resista à graça de Deus no próprio momento em que rezamos por ele (161). Mas, mesmo pedindo para nós mesmos os bens necessários à saúde eterna, nossa oração só é eficaz quando acompanhada de misericórdia, humildade, confiança e perseverança. Só assim expressa um desejo sincero, profundo e ininterrupto do nosso coração. E aqui, com a nossa fragilidade, reaparece o mistério da graça: é possível que sejamos inconstantes na oração, como nas obras meritórias. É por isso que dizemos na Santa Missa antes da Comunhão: “Não permitas, Senhor, que eu nunca me separe de ti, a te nunquam separari permittas”. Não nos deixe cair na tentação de não rezar; livrai-nos do mal de perder o gosto e a vontade de rezar; concede-nos perseverança na oração, apesar da aridez e do tédio profundo que às vezes sentimos nela.
Toda a nossa vida está envolta no mistério: cada um dos nossos atos salutares traz consigo o mistério da graça, e cada um dos nossos pecados é um mistério de iniquidade, que pressupõe uma permissão divina do mal em vista de um bem maior, que somente no céu será visto claramente. “Justus ex fide vivit”.
Precisamos de Deus para nos ajudar até o fim, não apenas para merecer, mas também para orar.
Como conseguiremos essa ajuda tão necessária para perseverar na oração? Recordando as palavras do Salvador: “Tudo o que pedirdes ao Pai em meu nome, Ele vo-lo concederá; até agora não lhe pediste nada em meu nome” (Jo. 16, 23).
Devemos pedir em nome do Salvador; que muito purifica e fortalece nossa intenção, pesando na balança mais que a espada de Breno. Devemos também pedir-lhe que reze por nós. A sua oração persiste todos os dias na Santa Missa, na qual, como diz o Concílio de Trento, não cessa de se oferecer através do ministério dos seus sacerdotes e de aplicar a nós os méritos da sua Paixão.
Não podendo merecer a graça de uma boa morte, mas obtendo-a através da oração, para alcançá-la precisaremos recorrer à oração mais perfeita e eficaz de todas, a de Jesus Cristo, o principal sacerdote do sacrifício da missa. É por isso que o Papa Bento XV, em carta ao Diretor da Arquiconfraria de Nossa Senhora da Boa Morte, recomenda veementemente aos fiéis que em vida celebrem missas para obter a graça de uma boa morte. Esta é, na verdade, a maior graça de todas, a dos eleitos; e se no último momento por um fervoroso ato de amor nos unirmos ao sacrifício de Cristo perpetuado no altar, podemos ainda obter a remissão da pena temporal devida pelos nossos pecados e evitar o purgatório.
Convém, portanto, obter a graça da perseverança final para unir-se frequentemente à consagração eucarística, que é a essência do sacrifício da missa, pensando nos quatro fins do sacrifício; adoração, súplica, reparação e ação de graças. Pensemos que, quando Jesus se oferece em sacrifício, na verdade oferece todo o seu corpo místico, sobretudo as almas que sofrem sobrenaturalmente como ele próprio sofreu. Enquanto perseverarmos neste caminho, nosso progresso será notável (162).
Unindo-nos da maneira mencionada ao sacrifício da missa e às missas que se celebram ao longo do dia, distribuídas em todo orbe pelo sol que em sua carreira anuncia em cada lugar a hora da oração matinal, prepararemo-nos no melhor caminho para uma boa morte, i.e., juntar-se a todas as missas que estão sendo celebradas, perto ou longe de nós, na hora do último momento de nossa vida mortal. Então faremos de nossa morte um sacrifício que se unirá ao sacrifício de Cristo, que se perpetua substancialmente no altar; sacrifício latrêutico ou adoração diante do poder soberano de Deus, senhor da vida e da morte, diante da majestade d’Aquele “que conduz o homem à sepultura e o ressuscita” (Tob. 3, 2); sacrifício impetratório para alcançar a última graça para nós e para aqueles que morrem ao mesmo tempo; sacrifício propiciatório pelas faltas de nossas vidas; sacrifício de ação de graças por todos os benefícios recebidos desde o batismo.
Este sacrifício oferecido com ardente amor a Deus poderá abrir-nos imediatamente as portas do céu, como as abriu ao bom ladrão que morreu ao lado de Jesus, que terminava a sua missa sangrenta, o sacrifício da cruz.
Antes que chegue a última hora para nós, devemos orar frequentemente pelos moribundos. Na porta de algumas capelas lê-se esta inscrição: “Rezai pelos que vão morrer durante a celebração da missa”. Certa vez, estas palavras chamaram extraordinariamente a atenção de um escritor francês: todos os dias seguintes, quando assistia à Santa Missa, rezava pelos moribundos; mais tarde, uma doença o manteve acamado por vários anos; e, como não podia ir à missa, oferecia diariamente seus sofrimentos pelos que morreram naquele dia. Assim teve a felicidade de obter muitas conversões inesperadas, in extremis (163).
Rezemos também pelos sacerdotes que assistem os moribundos; O ministério de socorrer uma alma em sua agonia, em sua última luta, é tão elevado! Rezemos para que o sacerdote chegue a tempo e obtenha do céu, quando o enfermo mergulha em profundo torpor, o momento preciso de lucidez, para sugerir os grandes sacrifícios que Deus lhe pede; para que a vossa oração sacerdotal, oferecida em nome de Cristo, de Maria e de todos os santos, obtenha a última graça, a graça das graças.
O sacerdote que assiste assim os moribundos tem, às vezes, a imensa consolação de ver, por assim dizer, que Nosso Senhor salva as almas em meio às dores do último transe. E [talvez] depois de ter rezado pela sua cura, vendo que a alma está bem disposta, acaba por dizer com muita confiança e paz esta admirável oração da Igreja: “Kyrie eleison, Christe eleison, Kyrie eleison… Proficiscere, anima christiana, de hoc mundo, in nomine Dei Patris omnipotentis, qui te creavit, in nomine Jesu Christi Filii Dei vivi, qui pro te passus est, in nomine Spiritus Sancti, qui in te effusus est” — “Sai deste mundo, alma cristã, em nome de Deus Pai Todo-Poderoso, que te criou, em nome de Jesus Cristo, Filho de Deus vivo, que sofreu por ti, em nome do Espírito Santo, que desceu sobre vós, em nome da gloriosa e santa Mãe de Deus, a Virgem Maria, em nome do bem-aventurado José, esposo predestinado da Virgem, em nome dos anjos e dos arcanjos…, em nome do patriarcas, profetas, apóstolos, evangelistas, em nome dos mártires, dos confessores, em nome de todos os santos e santas de Deus. Que a sua esteja hoje em paz, e seja tua morada na Jerusalém celestial, por Jesus Cristo, nosso Senhor”.
O mistério da salvação
À luz de uma santa morte, assim se esclarece para nós o mistério da predestinação, o terrível e doce mistério da escolha dos eleitos.
Entendemos melhor os dois grandes princípios, formulados por Santo Agostinho e por Santo Tomás, que citamos no início deste capítulo.
Por um lado, “sendo o amor de Deus a causa de todos os bens, ninguém seria melhor que o outro se não fosse mais amado por Deus”(164). Ninguém, se não fosse mais amado por Deus, superaria o próximo em atos salutares, nem fáceis nem difíceis, não podendo sem a graça começar, continuar ou concluir qualquer obra que leve à vida eterna. Nesse sentido, disse Nosso Senhor falando dos eleitos: “ninguém poderá arrebatá-los das mãos de meu Pai”. Ele referia-se aqui sobre a eficácia da graça, que faz São Paulo dizer: “Quem é que te distingue? Que tens tu, que não recebestes?” Que lição mais profunda sobre humildade?
Por outro lado, Deus nunca ordena coisas impossíveis, e por amor torna possível a todos, especialmente aos moribundos, cumprir os seus preceitos, e não priva ninguém da última graça, a menos que o homem recuse, resistindo à última chamada.
Consequentemente, se, como dizem Santo Agostinho e Santo Tomás, se concede a graça da perseverança final, é por pura Misericórdia, como foi concedida ao bom ladrão; se não for concedida, é apenas punição pelas faltas, geralmente repetidas, ou também pela última resistência, como aconteceu com o mau ladrão que se perdeu, morrendo tão próximo do Redentor.
Como diz São Próspero com palavras repetidas por um Concílio do século IX: “Se alguns se salvam, é pela graça do Salvador; se outros se perdem, é por culpa sua”(165).
Como se compõem intimamente estes dois grandes princípios, cada um tão certo em separado, o da eficácia da graça e o da salvação possível para todos? São Paulo responde: “O altitudo divitiarum sapientiæ et scientiæ Dei; quam incomprehensibilia sunt judicia ejus et investigabiles viæ ejus!” — “Ó profundidade dos tesouros da sabedoria e do conhecimento de Deus, quão incompreensíveis são os seus juízos, quão impenetráveis os seus caminhos!” (Rom. 11, 33). Antes de receber a visão beatífica, nenhuma inteligência criada pode compreender a concordância desses dois princípios. Penetrá-la equivaleria a compreender como, sem distinção real, a Justiça infinita, a Misericórdia infinita e a Liberdade soberana se unem e se identificam na Divindade, na vida íntima de Deus, no inefável Dele, naquela perfeição absolutamente sua, naturalmente incomunicável às criaturas, na Divindade enquanto superior ao ente, à unidade, à verdade, ao bem, à inteligência e amor; porque, embora todas essas perfeições divinas absolutas possam ser naturalmente participadas pelas criaturas, a Divindade não é, o que só é comunicado pela graça santificante, participação na natureza divina, não apenas na medida em que é vida intelectual, mas como propriamente a vida divina, o princípio pelo qual Deus é visto e amado imediatamente (166).
Para compreender a íntima concordância dos princípios de que falamos, seria necessário ver a essência divina.
Quanto mais evidentes para nós estes dois princípios que procuramos reconciliar, tanto mais escura parece, por contraste, com uma translúcida treva, a eminência da vida íntima de Deus, na qual se unem. Estes dois princípios são como as duas partes de um semicírculo ofuscante, acima do qual está, usando a linguagem dos místicos, a grande escuridão, que nada mais é do que “a luz inacessível em que Deus habita” (1Tm 6, 16).
Tal é, embora mal explicado, objeto de especulação, e diríamos mesmo da contemplação agostiniana, que constantemente inspirava Santo Tomás nestas difíceis questões. A obscuridade divina do mistério de que falamos vai muito além da teologia discursiva, sendo o objeto próprio da fé, fides est de non visis, da fé iluminada pelos dons do entendimento e da sabedoria, fides donis illustrata.
Deste ponto de vista superior, a contemplação de um mistério tão terrível e doce ao mesmo tempo torna-se reconfortante, como escreveu Bossuet, intimamente penetrado por esta doutrina, a uma pessoa atormentada pelo pensamento da predestinação: “Quando esses pensamentos, eu dizia, se oferecem ao espírito, e não custam poucos e inúteis esforços para se livrar deles, devem terminar em total abandono nas mãos de Deus, com a certeza de que a nossa salvação é muito melhor nas Dele do que nas nossas; e só assim é encontrada a paz. E é também aí que toda a doutrina da predestinação deve terminar como consequência do segredo do Senhor soberano, a quem se deve adorar e sem tentar esquadrinhar. É preciso habitar nesta alteza e nesta profundidade impenetrável da sabedoria de Deus e lançar-se de corpo nu nas mãos da sua imensa bondade… esperando tudo d’Ele, mas sem descuidar a nossa salvação… O fim deste tormento deve ser o abandono nas mãos de Deus, que por sua bondade e suas promessas será obrigado a zelar por vossa graça. Aqui está o verdadeiro resultado, enquanto dura a nossa vida, de todos os pensamentos que tanto assediam a tua graça em matéria de predestinação: e uma vez feito isso, é necessário descansar, não em si mesmo, mas somente em Deus e em sua paternal bondade”(167).
O próprio Bossuet diz em um dos mais belos capítulos de seu Méditations sur l’Évangile (IIa Parte, Dia 72): “O orgulhoso tem medo de tornar sua salvação muito incerta se não a tiver em suas mãos, mas está enganado. Posso me assegurar? Meu Deus, sinto que minha vontade me escapa a cada momento: se vós quisésseis fazer de mim o único senhor de meu destino, eu recusaria um poder tão perigoso para minha fraqueza. Portanto, não me diga que essa doutrina de graça e preferência leva as boas almas ao desespero. Como?! Já imaginou me deixar mais tranquilo me entregando a minha própria força e minha inconstância? Não, meu Deus, não posso permitir. Não encontro segurança senão no abandono em tuas mãos. E tenho tanto mais segurança, pois aqueles a quem concedeis a confiança de se entregarem inteiramente a Vós, nesse doce instinto recebem o melhor sinal da vossa bondade que se pode dar na terra”. “Confitemini Domino, quoniam bonus…” (Ps. 117).
Este nos parece ser, como explicamos em outro lugar (168), o verdadeiro pensamento de Santo Agostinho naquilo que há de mais elevado, quando, ainda por cima, raciocinando à parte, repousa nas trevas divinas do mistério, onde devem ser conciliados os seus aspectos aparentemente mais opostos, formulados nos princípios já referidos: Deus nunca ordena coisas impossíveis; Ninguém seria melhor que outro, se não fosse mais amado por Deus. Estes princípios são como duas estrelas de primeira grandeza que resplandecem com extraordinário brilho na noite espiritual; mas não bastam para nos revelar as profundezas do firmamento, o segredo da Divindade.
Antes de ter recebido a visão beatífica, por um instinto secreto, Ele nos tranquiliza com graça sobre a reconciliação íntima na Divindade de infinita Justiça e infinita Misericórdia, e nos tranquiliza precisamente assim, pois a graça é uma participação na Divindade e na luz da vida, muito superior à luz natural da inteligência angelical ou humana.
Certamente, toda a nossa vida interior está envolta em mistério, assim como cada um dos nossos atos, porque toda obra que conduz à vida eterna pressupõe o mistério da graça que nos ajuda a realizá-la, e todo pecado é um mistério de iniquidade, que pressupõe a permissão divina do mal em vista de um bem maior, que muitas vezes não compreendemos e que só poderemos ver claramente no céu. Mas no meio desta escuridão da fé, que é também a escuridão da contemplação aqui na terra, somos confortados pelo pensamento de que Deus é o nosso salvador, que Jesus Cristo morreu por nós, que seu sacrifício é substancialmente perpetuado no altar e que nossa salvação está mais segura em suas mãos do que nas nossas; com efeito, temos mais confiança na retidão das intenções de Deus do que em nossas melhores intenções.
Abandonemo-nos com amor e confiança nas mãos da infinita Misericórdia, que é o meio mais seguro de obtermos dela que se incline para nós neste momento e no momento de nossa morte.
Lembremo-nos frequentemente das belas palavras do salmista (Ps. 54, 23), que lemos todas as quartas-feiras no ofício da Tercia: “Jacta super Dominum curam tuam et ipse te enutriet ; non dabit in æternum fluctuationem justo. — Abandona-te nas mãos de Deus e Ele cuidará de ti: nunca deixará sucumbir o justo”.
Meditemos no belo cântico do ancião Tobias (Tob. 3, 2): “Magnus es Domine in æternum et omnia sæcula regnum tuum ; quoniam tu flagellas et salvas, deducis ad inferos et reducis… Ipse castigavit nos propter iniquitates nostras, et ipse salvabit nos propter misericordiam suam. — Grande és tu, ó Senhor, desde a eternidade, e o teu reino se estende por todos os séculos. Porque feris e dais saúde, conduzis à sepultura e o livrais… Cantai hinos ao Senhor, filhos de Israel… Ele nos castigou por nossas iniquidades e nos salvará por sua misericórdia”.
Nesta abandono encontraremos a paz. Quando o Salvador morreu por nós, unidos em sua alma santa estava o mais profundo sofrimento, causado por nossos pecados, e a mais profunda paz. Da mesma forma, em cada morte cristã, como na do bom ladrão, há uma união muito íntima de sofrimento, de santo temor, de tremor diante da justiça infinita e de profunda paz. Mas, acima de todos os outros sentimentos, a paz ou tranquilidade da alma domina naquele momento supremo, como quando Jesus expirou dizendo: “Consummatum est… Pater, in manus tuas commendo spiritum meum”.
Notas:
153. “Aliqua Dei praecepta hominibus justis volentibus et conantibus, secundum praesentes quas habent vires, sunt impossibilia, deest quoque illis gratis, qua possibilia sint”.
154. O Concílio de Trento, sess. VI, cânon 22 (Denzinger, 832) definiu: “Si quis dixerit justificatum vel sine speciali auxilio Dei in accepta justitia perseverare posse, vel cum eo non posse, anathema sit” (Cf. nos 804 e 806). Estes termos do Concílio de Trento: a graça da perseverança final é uma ajuda especial devem ser bem compreendidos para evitar qualquer mal-entendido. Não é necessária uma nova ação divina, pois, como diremos adiante, a conservação da graça nada mais é do que a continuação de seu primeiro efeito e não uma nova ação. Do mesmo modo, por parte da alma, basta conservar a graça habitual sem uma nova graça atual, como acontece com a criança batizada que morre depois do batismo sem fazer um ato de amor a Deus. Mas, de acordo com os Concílios de Orange e Trento, o que constitui um dom especial concedido a um em detrimento do outro é o fato da união do estado de graça e morte… o fato de conservar a graça no momento supremo, em vez de perdê-lo por alguma falha permitida por Deus. A união do estado de graça e da morte é um grande bem, e esse bem vem de Deus; quando é concedido, é obra da Misericórdia divina: neste sentido é um dom especial.
155. O Concílio de Trento também diz, sess. VI, cap. 11 e 13 (Denz., 804, 806): “Deus impossibilia non jubet… In Dei auxilio firmissimam spem collocare et reponere omnes debent. Deus enim, nisi ipsi (homines) illius gratiae defuerint, sicut coepit opus bonum, ita perficiet, operans velle et perficere” (Fp. 2, 13).
156. “Adjutorium Dei etiam renatis et sanctis semper est implorandum, ut ad finem bonum pervenire vel in bono possint opere perducare” (Denzinger, n° 183).
157. “Quod quidem (donum) aliunde haberi non potest, nisi ab eo qui potens est eum qui stat statuere ut perseveranter stet, et eum qui cadit, restituere” (Denzinger, n° 806).
158. Nas coisas de Deus, dada a sua altura, o mais simples é o mais profundo; simplicidade bem diferente daquela de que falava Voltaire quando dizia: “Sou claro como os riachos, porque sou raso”.
159. Os teólogos discutem se o dom da perseverança final pode ser objeto de mérito de congruo, baseado na caridade que nos une a Deus, in jure amicabili, sobre os direitos de amizade entre o Senhor e o justo, e não sobre a justiça de condigno.
Os melhores comentadores de Santo Tomás contestam, de acordo com os princípios por ele formulados, que a perseverança final não pode ser objeto de mérito de congruo propriamente dito; porque o princípio desse mérito é o estado de graça preservado, e o princípio do mérito, como vimos, não pode ser merecido.
Além disso, o mérito de congruo propriamente dito, fundado nos direitos da amizade, in jure amicabili, alcança infalivelmente a recompensa correlata. Deus nunca nos nega o que merecemos dessa maneira, pelo menos não o que merecemos pessoalmente por nós mesmos. Disto resultaria que todos os justos que atingiram a maioridade mereceriam por seus atos de caridade o dom da perseverança final, e de fato perseverariam até o fim; o que não pode ser aceito.
Concordamos, então, que a graça de uma boa morte pode ser objeto de um mérito de congruo em sentido amplo, que nada mais é do que o valor impetratório da oração, que não se fundamenta na justiça, nem nos direitos da amizade, mas na liberalidade e na misericórdia de Deus.
160. Não sendo merecida a graça da perseverança, Deus não no-la concede por antecipação de nossos méritos; portanto, a predestinação para a glória também é gratuita, como diz Santo Tomás (Ia, q. 23, a. 5): não é “ex praevisis meritis”. Ou se quiséssemos defendê-lo, teríamos que dizer de qualquer maneira; o que nos é dado “ ex praevisis meritis absque speciali dono usque in finem perdurantibus”.
161. Mas se muitos de nós rezamos pela conversão de um pecador, ou se rezamos não apenas por alguns dias, mas por meses e até longos anos para alcançá-la, é cada vez mais provável que o Senhor, que nos faz perseverar assim na oração, está disposto a nos ouvir.
162. Este ponto é bem destacado num belo livro que acaba de ser publicado: Sept retraites de la Mère Élisabeth de la Croix (fundadora do Carmelo de Fontainebleau), Lethielleux, Paris. Aqui estão os títulos destes sete exercícios: “Sous le regard du ciel”, “Le Miserere”, “Les Dons du Saint-Esprit”, “Sur le Calvaire”, “Les Fiançailles spirituelles”, “Le Mariage spirituel”; nestes exercícios espirituais trata-se apenas da união da alma consagrada com Jesus crucificado, para a glória de Deus e para o bem das almas. Constantemente lemos palavras como estas: “Nosso Senhor revelou-me os sentimentos do seu Sagrado Coração e transfundiu-os para mim… Disse-me: “Dois motivos principais me fizeram aderir à condenação de Pilatos: a vontade e a glória de meu Pai, a fome de salvação dos homens. Que esses dois sentimentos dominem toda a sua vida nos mínimos detalhes. Sofra meus sofrimentos… Nada para vós neste retiro, tudo para mim. Orgulho e pecado são a minha cruz; ajuda-me um pouco a carregar esta cruz. O fruto que deveis tirar da Cruz que Ele carregou por vós é não gozar de nada na terra, tender ao sacrifício contínuo, querer o que Deus quer, expiar os pecados dos homens, principalmente dos meus sacerdotes, das minhas esposas… qualquer coisa, tenha sua alma bem unida à minha através da cruz, e ocupe seu coração unicamente em mim por amor” (p. 181 ss). “Assim (carregado com a cruz) Eu sou vosso modelo.” Durante a santa missa, na oblação do pão e do vinho, disse-me Nosso Senhor Jesus Cristo: “Eu vos ofereço ao meu Pai para serdes vítimas em toda a extensão dos meus desígnios sobre vós…, das necessidades da minha Igreja…, dos perigos das almas e da profundidade dos meus apelos”. Na Sagrada Comunhão ele me disse: “Serei sempre a tua força…” “A minha cruz é o sinal, o testemunho do amor que tenho pelas almas… e também que as almas têm por mim. Eu vos convidei para compartilhar a loucura da cruz… para não se prender ao mundo por nenhuma fibra… para me seguir através da dor, reprovação, ignomínia… para ser uma noiva crucificada ‘até a morte…” Disse-me também: “Fui condenado [por calúnia] a morrer na cruz… Quanto mais seus sofrimentos se assemelharem aos meus, mais feliz vós sereis, porque essa é a prova de que vós eres mais amado do que os outros. Sê doce de coração para com aqueles que te trazem ou te trouxeram a cruz”. “Sofre comigo para reparar a glória de meu Pai e resgatar almas” (p. 184 ss).
163. Recomendamos dois livros de Adolphe Retté sobre o assunto: Jusqu’à la fin du monde, commentaire vécu de la phrase de Pascal: “Jésus sera en agonie jusqu’à la fin du monde”, e Oraisons du silence (Albert Messein, Paris, 1930). Este último livro, com suas belas páginas sobre a solidão, a pobreza, o desapego, a dor, a paz e o amor de Deus, é uma preparação admirável para uma morte santa. Termina com estas palavras: “Que o ritmo das horas que me restam para viver na terra se conforme inteira e exclusivamente à santa doxologia: ‘Gloria Patri et Filio…’ Invocação confortante, que me alegra por ter sofrido e ainda sofrer por teu serviço, Senhor. Cada vez que digo isso com um coração contrito e uma mente reta, sei que sua graça fluirá em minha alma… Permita-me ser crucificado à sua direita como o bom ladrão. E, ao se lembrar dele, lembre-se de mim no seu reino dos céus!” Esta oração foi ouvida; Adolphe Retté teve uma morte santa.
164. Santo Tomás, Ia, q. 20, a. 3: “Cum amor Dei sit causa bonitatis rerum, non esset aliquid alio melius, si Deus non vellet uni majus bonum quam alteri.” Ibid., a. 4: “Ex hoc sunt aliqua meliora, quod Deus eis majus bonum vult”. É o princípio da predileção.
165. Cf. Concílio de Quierzy, 853 (Denzinger, n° 318): “Deus omnipotens omnes homines sine exceptione vult salvos fieri (1Tm., 2, 4), licet non omnes salventur. Quod autem quidam salvantur, salvantis est donum ; quod autem quidam pereunt, pereuntium est meritum”.
166. A alma humana e o anjo participam naturalmente da vida intelectual e, por conseguinte, têm uma semelhança analógica com Deus, na medida em que Ele é inteligente. A graça santificante não é apenas uma semelhança de Deus enquanto inteligente, mas precisamente enquanto Deus, uma participação na Divindade enquanto tal, ou, se se preferir, na intelectualidade divina, enquanto divina, na vida divina enquanto divina. É assim que respondemos a uma questão colocada pelo Padre Gardeil em seu belo livro La Structure de l’âme et l’expérience mystique (vol. I, p. 388) a respeito da relação entre a graça santificante e o constitutivo formal da natureza divina. A graça santificante não é apenas uma participação na natureza divina enquanto ser, ou enquanto intelectual, mas propriamente enquanto divina. A graça é uma participação física, formal e analógica na Divindade enquanto tal, cuja razão formal absolutamente eminente, como diz Caetano (Ia, q. 39, a. 1, nº VII), é superior às razões do ser, da inteligência, da unidade, etc., que são naturalmente participáveis pelas criaturas: “Deitas est super ens et super unum”. Já expusemos extensamente este ponto noutro lugar: Dieu, son existence et sa nature, p. 347 e ss. e 520 e ss., e o próprio Padre Gardeil fala neste sentido na mesma obra, T. I, pp. 246, 287.
167. Cartas de direção. Œuvres complètes de Bossuet, Paris; 1846, t. XI, p. 444.
168. La volonté salvifique chez S. Augustin: (Deus nunca ordena o impossível), Revue Thomiste, 1930. p. 473–487. Item Dictionnaire de Théologie catholique, artigo Prédestination: conclusão.
Trad. por Dominicus; de Pe. Frei RÉGINALD GARRIGOU-LAGRANGE, O.P.; La Providence et la confiance en Dieu, parte V, cap. III.

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