Padre Álvaro Calderón, F.S.S.P.X.
2010
Poderíamos pensar que na exposição do ponto anterior tudo não passou de uma mudança de linguagem, com o propósito apologético de tornar os conceitos tradicionais compreensíveis ao homem de hoje, o que seria a finalidade alegada para o Concílio por João XXIII no discurso inaugural. Tradicionalmente, costumava-se dizer que a dupla finalidade da Igreja em geral é a glória de Deus e a santificação das almas, e que o amor ao próximo — conforme São João ensina em sua primeira carta é o caminho mais certo para o amor de Deus. O Concílio estaria apenas salientando que buscar a santificação das almas não é outra coisa senão promover a dignidade humana, o que é sem dúvida verdadeiro.
Mas qualquer um com alguma experiência da vida espiritual e das coisas humanas sabe o quão fácil e sutilmente podem ser deturpados estes dois fins últimos, que estão ordenados, mas intimamente ligados. Entre o frade humilde que trabalha em sua própria perfeição por amor à vontade de Deus, e o frade orgulhoso que cumpre com o que Deus manda por amor à própria perfeição, pode haver uma grande semelhança nos atos e palavras — a ponto de a diferença passar despercebida por um zeloso superior — e todavia existe um abismo entre os dois. O primeiro está a serviço de Deus e o segundo quer que Deus esteja a seu serviço.
A questão do fim último não é dificil de entender, mas exige algumas distinções precisas e oportunas, sem as quais resultam erros enormes, porque o que ali está em jogo — no dizer de Santo Inácio — é o princípio e fundamento da ordem interior do homem, da sociedade e da Igreja, de modo e que um pequeno erro nos princípios se torna imenso nas conclusões. Talvez a explicação mais simples e completa do assunto seja a de Santo Tomás ao explicar, na Suma Teológica, as duas primeiras petições do Pai Nosso:
É sabido que a primeira coisa que desejamos é o fim, e em segundo lugar, os meios para alcançá-lo. Mas o nosso fim é Deus. E a nossa vontade tende a Ele de duas maneiras: ao desejarmos sua glória e ao querermos fruir dela. A primeira dessas duas maneiras refere-se ao amor com que amamos a Deus em si mesmo; a segunda, ao amor com que amamos a nós mesmos em Deus. Por isso dizemos na primeira petição: santificado seja o Vosso Nome, pedindo dessa forma a glória de Deus. Já na segunda dizemos: Venha a nós o Vosso Reino, pedindo que nos seja dado alcançar a glória de Seu Reino (1).
A principal distinção que é preciso compreender bem é a que se dá entre aquilo que é “fim” e o que é “alcançar o fim”. O fim da vontade é sempre um bem, e o fim último da vontade do homem não é outro senão próprio Deus, Bem incriado. Por isso Santo Tomás diz: “O nosso fim é Deus”. Mas outra coisa é alcançar esse fim e Bem, isto é, possuí-lo e fruir dele, o que se consegue por meio de determinada ação: E esta ação também pode ser considerada, em certo sentido, como último fim. O fim do avarento é o dinheiro, ou também a posse e o gozo do dinheiro. De certo modo são a mesma coisa, pois querer o dinheiro significa querer possuí-lo, mas vistos em sua própria realidade não são idênticos, porque uma coisa é o dinheiro e outra, a ação de possuí-lo. O bem que se quer como fim é algo absoluto e designa-se fim puro e simples (simpliciter), ao passo que a ação pela qual se alcança o fim é algo relativo àquele bem, uma vez que o toma como objeto, e designa-se fim somente em certo sentido (secundum quid). Santo Tomás chama o primeiro de “finis cuius” e o segundo de “finis quo”(2).
O que dizemos do homem pode ser dito de certo modo (por analogia) de toda criatura e também de Deus. Todas e cada uma das criaturas tem a Deus como fim último, embora cada uma delas tenda a Ele de uma maneira diferente — tendência que se pode chamar de “apetite natural” — e O alcance por meio de uma ação distinta. Por isso, se nos referirmos ao fim em si mesmo (simpliciter ou “cuius”), o homem e todas as demais criaturas terão o mesmo fim, que é Deus; mas se nos referirmos ao fim enquanto o ato de o alcançar (fim secundum quid ou “quo”), então as diferentes criaturas terão diferentes fins últimos: o homem, contemplar a Deus, e o canário, cantá-Lo (3).
Pois bem, a realização dessa ação pela qual se alcança o fim último supõe, para cada coisa, ter já alcançado a perfeição do seu ser e das su potências operativas, pelo que convém fazer outra distinção — levemente diferente da anterior — entre fim intrínseco e extrínseco. Isto porque, como dissemos, o homem e qualquer outra criatura tem a Deus como fim último extrínseco, a ser alcançado por sua operação, mas para isso deve alcançar a perfeição última que lhe torna possível produzir essa ação; assim, também cabe dizer que o fim último intrínseco de cada criatura é chegar à perfeição última de sua própria natureza, que a torna apta para alcançar a Deus (4). O fim último intrinseco do homem é sua perfeição como imagem de Deus, que é virtualmente perfeita pelas virtudes teologais, e é atual e ultimamente perfeita no ato da contemplação de Deus (5).Por isso dizemos que o fim último (intrínseco) do homem é a santidade, tendo-se em conta sobretudo a perfeição das virtudes, e dizemos com mais propriedade que seu fim último é a glória, na qual se alcança a perfeição última pelos atos de visão e gozo de Deus.
Como se vê, considerados segundo o que são em si mesmos (secundum rem), o fim último intrínseco é o mesmo que o fim “quo”, mas considerados segundo sua razão formal (secundum rationem) não são a mesma coisa, porque o fim intrínseco é uma consideração absoluta do bem da criatura, ao passo que o fim “quo” é uma consideração relativa ao fim último extrínseco, Deus. (Espero que o leitor não se assuste com tantas distinções!) O bem particular da criatura não é tão absoluto como se diz, é antes uma participação do Bem comum que é Deus, Bem absoluto por excelência. Podemos falar, portanto, sobre o fim último do homem de quatro maneiras:
- O fim último puro e simples (simpliciter), que é Deus, Bem absoluto transcendente, isto é, extrínseco ao homem,
- O fim último sob certo aspecto (secundum quid), que pode ser:
— A santidade, entendida como perfeição das virtudes (fim intrínseco último quanto ao ser).
— A glória, entendida como estado último de contemplação de Deus (fim intrínseco último puro e simples).
— A beatitude, entendida como posse do Bem infinito (finis quo).
Muitas vezes a santidade, a glória e a beatitude são consideradas a mesma coisa, sem distinção.
Notas:
1. II-II, q. 83, a. 9: “Manifestum est autem quod primo cadit in desiderio finis; deinde ea quae sunt ad finem. Finis autem noster Deus est. In quem noster affectus tendit dupliciter, uno quidem modo, prout volumus gloriam Dei; alio modo, secundum quod volumus frui gloria eius. Quorum primum pertinet ad dilectionem qua Deum in seipso diligimus, secundum vero pertinet ad dilectionem qua diligimus nos in Deo. Et ideo prima petitio ponitur: ‘Sanctificetur nomen tuum’, per quam petimus gloriam Dei. Secunda vero ponitur: ‘Adveniat regnum tuum’, per quam petimus ad gloriam regni eius pervenire.”
2. I-II, q. 1, a. 8: “Falamos de fim de dois modos, a saber: cuius e quo; ou seja, a coisa mesma na qual o bem se encontra e o seu uso ou consecução. Por exemplo, o fim do corpo pesado é o lugar inferior, como coisa, e estar no lugar inferior, como uso; e o fim do avarento é o dinheiro, como coisa, e a sua posse, como uso.”
3. Cf. I-II, q. 1, a. 8.
4. In XII Metaph., lect. 12, n. 2627 e 2629: “O bem, na medida em que é o fim de algo, é duplo. De fato o fim é extrínseco relativamente àquilo que é ordenado ao fim, como quando dizemos que o lugar é o fim daquilo que se move para o lugar. Mas o fim é também intrínseco, como a forma é o fim da geração e da alteração e a forma já adquirida é certo bem intrínseco daquilo de que é a forma. Já a forma de um todo, que é uno devido a certa ordenação das partes, é a sua ordem: donde se deduz que é um bem seu [intrínseco]. […] O universo tem um bem e um fim dos dois modos. Há, com efeito, um bem separado, que é o Primeiro Motor, do qual dependem o céu e a natureza inteira, como de um fim e um bem apetecível, o que já se demonstrou. Mas também, uma vez que todas as coisas cujo fim é uno devem concordar em ordem a tal fim, é necessário haver uma certa ordem nas partes do universo; razão pela qual o universo teme (como fim] tanto o bem separado (fim extrinseco), quanto o bem da ordem [fim intrínseco].”
5. I, q. 93, a. 7: “A imagem da Trindade [na mente] é considerada antes de tudo segundo os atos, i.e. na medida em que, a partir do conhecimento que temos, ao pensar formamos a palavra interiormente, e com isto sentimos um ímpeto de amor. Mas uma vez que os princípios dos atos são os hábitos e as potências, e que toda coisa está virtualmente em seu princípio, a imagem da Trindade, de um modo secundário e como que por consequência, pode ser considerada na alma segundo as potências, e sobretudo segundo os hábitos, i.e. na medida em que neles os atos ocorrem virtualmente.”
Excerto de: Pe. ÁLVARO CALDERÓN, F.S.S.P.X.; Prometeu – A Religião do Homem, Castela, 2010, 2ª ed., pp. 28-31.

Deixe um comentário