Padre Hervé Belmont
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A seguir, o texto de uma carta escrita a um homem que só quer assistir à Missa tridentina que inclua una cum Johanne-Paulo [hoje seria una cum Francisco] no Cânon.
Quando a exposição calma e argumentada da doutrina católica fracassou e nem sequer provocou reação, pode-se por vezes esperar que a mordida da ironia suscitará alguma reflexão salutar. De resto, aqueles que têm alguma ciência do coração humano sabem o quanto a ironia pode [mal] esconder uma profunda mágoa.
Senhor,
declarais não querer assistir senão à Missa tridentina celebrada una cum Johanne-Paulo, à exclusão de qualquer outra, e isso porque é sempre assim que procedeu a Santa Igreja Católica.
Uma tal convicção, exprimida com firmeza e precisão, impõe respeito. Encontrai expressão dele aqui, e permiti que eu me detenha nisso por cinco minutos.
Sem dúvida alguma que, em virtude do mesmo princípio, vós vos assegurais a cada Missa de que não somente João Paulo II seja mencionado no lugar apropriado, mas também de que seja nomeado o bispo diocesano que é seu representante por ele escolhido e acreditado. Pois não quereríeis, por nada neste mundo, que a Missa à qual assistis omitisse essa menção igualmente obrigatória, [1. Ritus servandus, viii, 2.] menos ainda que houvesse aí a presença de um outro bispo por assim dizer parasita, sobretudo se este tiver tido a audácia de ser sagrado sem mandato apostólico – o que nunca foi admitido na Igreja –, pois nesse caso vós o teríeis por aquilo que ele é: um excomungado, nem mais nem menos. [2. Cânon 2370. Decreto do Santo Ofício, 9 de abril de 1951, AAS 1951 pp. 217-218.]
Não há dúvida, tampouco, de que o vosso rigor verifica que o padre celebrante é regularmente ordenado, incardinado e munido do celebret entregue por seu próprio bispo diocesano: [3. Cânon 804.] isso sempre se fez, e sois um homem de tradição e de princípios. Seria para vós insuportável que o celebrante não estivesse dentro da lei, e fugiríeis caso tivésseis a menor suspeita de que a ordenação dele esconde alguma irregularidade ou – pior – seja devida a um dos excomungados supramencionados: ele seria ipso facto atingido pela pena de suspens. [4. Cânon 2372.]
Bem entendido, como sabeis que não se pode satisfazer ao preceito dominical a não ser numa igreja ou num oratório público ou semi-público legitimamente erigido, [5. Cânon 1249.] jamais entrais nessas capelas improvisadas, edificadas ou utilizadas à margem da autoridade diocesana e sem estatuto canônico: como vos dais conta, dada a vossa juventude nunca teríeis cumprido o grave dever de assistir à Missa dominical! Seríeis um pecador multi-recidivo; o que não se pode conceber.
E, nessa hipótese absurda, estaríeis rodeado apenas de sacerdotes sem jurisdição, que não vos poderiam absolver validamente [6. Cânon 879.] (salvo em caso de perigo de morte), e além disso suspens a divinis, por terem ousado tentar confessar sem terem recebido os poderes necessários do bispo diocesano ou do Papa. [7. Cânon 2366.] Ainda bem que não é nada disso! Não poderíeis ser cúmplice disso, seria um impasse trágico.
Imaginai, por um instante, que contempleis casar-vos. Vossos princípios tão luminosos e tão universais vos interdiriam absolutamente de manifestar o vosso consentimento ao matrimônio perante um padre desprovido da delegação necessária do pároco da paróquia em cujo território será celebrada a cerimônia: o matrimônio seria seguramente inválido, [8. Cânons 1094 & 1096.] e o cortejo nupcial nada mais seria, de fato, que um cortejo de pecados mortais. Ah! como é clara a vossa situação, a vós que recusais toda transigência com esse espírito cismático e essa situação de invalidade sacramental, a vós que vos atendes ao que a Igreja sempre fez.
E o vosso rigor em fugir do cisma reúne-se, sem sombra de dúvida, com o vosso ardor em romper com a heresia. Pois não sois daqueles que negam a infalibilidade do magistério ordinário e universal, [9. Pio IX, Tuas Libenter, 21 de dezembro de 1863, Denzinger 1683. Vaticano I, De Fide Catholica, 24 de abril de 1870, Denzinger 1792.] nem tampouco a jurisdição imediata do Soberano Pontífice sobre todos e cada um dos católicos, [10. Vaticano I, De Ecclesia Christi, 18 de julho de 1870, Denzinger 1827 & 1831.] pois a Igreja sempre acreditou nelas. Vossa linha de conduta é a obediência, a submissão à Igreja docente, a docilidade católica à autoridade pontifícia. Com base nisso, vós aceitais os decretos do Vaticano II, especialmente aquele sobre a liberdade religiosa, e não sois um daqueles que negam-lhe a autoridade: os textos que a afirmam são demasiado claros [11] e solenemente promulgados [12]; a fé está envolvida.
[11. Dignitatis Humanæ, 7 de dezembro de 1965. § 2: “A liberdade religiosa tem seu próprio fundamento na dignidade da pessoa humana tal como no-la dá a conhecer a Palavra de Deus…”. § 9: “Essa doutrina da liberdade religiosa tem as suas raízes na Revelação divina…”.]
[12. Breve In Spiritu Sancto de 8 de dezembro de 1965: “Nós mandamos e ordenamos que tudo o que foi decidido sinodalmente neste Concílio seja observado santa e religiosamente pelos fiéis de Cristo… Estas letras permanecerão sempre firmes, válidas e eficazes…”]
Como professais a fé católica, aceitais previamente as solenes condenações pontifícias dessa mesma liberdade religiosa; [13. Gregório XVI, Mirari Vos, 15 de agosto de 1832, Denzinger 1613 & 1614. Pio IX, Quanta Cura, 8 de dezembro de 1864, Denzinger 1690.] e, como não sois modernista, professais simultaneamente que a fé tem conteúdo inteligível e coerente. Tendo chegado a este ponto, confesso o meu embaraço em compreender como é que saís dessa enrascada… mas, como vos vejo seguro de vós mesmo, deveis certamente ter um meio de conciliar os inconciliáveis.
Igualmente, o vosso espírito católico vos faz rejeitar todo o veneno do protestantismo, e tudo o que nele se inspira. Logo, recusais uma reforma litúrgica que simultaneamente aceitais, porque a Igreja Católica, na qual credes de toda a vossa alma, vos proíbe de supor que as leis e a liturgia por ela instauradas sejam más ou nocivas de qualquer modo que seja. [14. Concílio de Trento, De Sacramentis, 3 de março de 1547, Denzinger 856. Pio VI, Auctorem Fidei, 28 de agosto de 1794, Denzinger 1533 & 1578.] Mas, também aí, devo confessar meu embaraço…
Eu poderia continuar ainda, mas não vos pedi que me concedêsseis mais que cinco minutos; assim, concluo bem depressa.
Como sois resoluto adepto e defensor daquilo que a Igreja sempre fez, vossa recusa de uma Missa sem una cum inclui necessariamente tudo isso, e não há dúvida de que fazeis questão de que isso esteja claro e seja inapelável.
E, portanto, se assim não for, é que VÓS FAZEIS DE CONTA.
Mas aí, já não vos acompanho de maneira nenhuma. Não se faz de conta que se crê na Igreja Católica e em tudo o que ela ensina; não se faz de conta que se ama ao Bom Deus a ponto de contristar parentes e amigos. Não se faz de conta uma fidelidade que não passa de livre exame. É uma ignóbil comédia, ou então uma amarga diluição do espírito.
Não quero, em absoluto, acabrunhar-vos. Fostes sem dúvida reciclado por gente para a qual a teologia consiste em inventar escapatórias; cuja grande preocupação é a de pegar a Mãe em erro, quero dizer: a de procurar (e pretender encontrar) exemplos históricos nos quais a Igreja se teria enganado, a fim de descobrir aí pretexto para fazerem o que bem entendem – isto é, qualquer coisa. [15] Isso não é teologia, é impiedade.
[15. Um exemplo. Devo citar-vos os artigos do Direito Canônico de 1917 (foi o que eu fiz) ou os de 1983? A autoridade que reconheceis como legítima aboliu o primeiro, e vós recusais adotar o segundo que ela promulgou conforme as regras. Aliás, não é complicado: vós ignorais os dois. Assinalo-vos simplesmente, de passagem, que encontrareis no direito canônico de 1983 as mais graves disposições citadas na minha carta: cânon 966 (invalidade das confissões), cânon 1108 (invalidade dos matrimônios) e cânon 1382 (excomunhão por sagração episcopal sem mandato apostólico). Não tendes por onde escapar.]
E vós, que não fostes criado nessa atmosfera de impiedade filial para com a Igreja – impiedade que é a marca mais característica e mais triste do mundo em que vivemos –, vós, portanto, não deveríeis vos deixar influenciar por esses ignorantes. São simpáticos, cheios de boa vontade, dinâmicos; mas os erros que eles difundem são mortais para a fé e contrários a tudo o que a Igreja sempre ensinou e praticou. Saí dessa atmosfera deletéria, retornai às vossas convicções de outrora: elas eram francamente católicas. Deixai de fazer de conta.
No aguardo de uma tal ressurreição, rogo-vos creiais que não faço de conta que vos amo em Nosso Senhor e Nossa Senhora, e que rezo por vós.
Padre Hervé Belmont
Trad. por Felipe Coelho

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