PIO XII E O MANÁ DA SEXTA-FEIRA

Pe. Hervé Belmont | 2012

Deus, em Sua divina sabedoria e bondade paternal, nutriu o povo hebreu ao longo de toda a travessia do deserto que se seguiu à libertação do Egito. Por castigo, essa travessia durou quarenta anos, mas a solicitude divina não se desmentiu e o maná acompanhou fielmente essa imensa multidão até à terra prometida.

Notemos de passagem que os castigos que Deus inflige aqui embaixo são vindicativos (restabelecem a ordem, vingam a verdade ou o bem que foram feridos), mas também medicinais: embora comportem expiação e pena, nem por isso são um desamparo por parte de Deus, que neles quer que encontremos ocasião de purificação e de aumento do amor por Ele.

Toda manhã, os hebreus recolhiam a quantidade de maná suficiente para a alimentação do dia; se, por receio de faltar e por desconfiança da promessa divina, eles o recolhiam a mais, o maná excedente apodrecia e tornava-se impróprio para o consumo. Mas, para que fosse rigorosamente observado o repouso sabático, o maná caía mais abundante na sexta-feira, a fim de poder ser recolhido em dobro, e a parte do sábado permanecia intacta, para servir de alimento ao longo do dia que Deus reservara para Si.

“E pela manhã havia uma camada de orvalho em roda dos acampamentos. E, tendo coberto a superfície da terra, apareceu no deserto uma coisa miúda, e como pisada num almofariz, à semelhança de geada sobre a terra. Tendo visto isto os filhos de Israel disseram entre si: Manhu? que significa: Que é isto? Porque não sabiam o que era.

E Moisés disse-lhes: Este é o pão que o Senhor vos dá para comer. Eis o que o Senhor ordenou: cada um colha dele quanto baste para seu alimento; tomai um gomor por cabeça, conforme o número dos que habitam em cada tenda.

E os filhos de Israel assim fizeram; e apanharam uns mais, outros menos. E mediram-no por um gomor; e nem o que tinha ajuntado mais tinha maior quantidade, nem o que tinha colhido menos, encontrou de menos; mas cada um tinha apanhado quanto podia comer.

E Moisés disse-lhes: Ninguém o guarde até (amanhã) de manhã. Mas eles não lhe deram ouvidos, e alguns conservaram-no até de manhã, e ele começou a ferver em vermes, e apodreceu; Moisés, pois, irou-se contra eles. Cada um, então, colhia pela manhã quanto podia bastar para seu alimento; e, quando o sol fazia sentir os seus ardores, (o maná) derretia-se.

Mas, no sexto dia, colheram eles o dobro daquele alimento, dois gomores por cabeça, e todos os principais do povo foram dar parte disso a Moisés, o qual lhes disse: Isto é o que o Senhor ordenou: Amanhã é o descanso de sábado consagrado ao Senhor. Fazei (hoje)tudo o que tendes de fazer, e cozei o que tendes de cozer; e tudo o que sobejar, guardai-o para amanhã. E fizeram como Moisés ordenara, e (o maná) não se corrompeu nem se acharam vermes nele.

E Moisés disse: Comei hoje o que guardastes, porque é o sábado do Senhor; hoje (o maná) não se achará no campo. Colhei-o durante seis dias; mas o dia sétimo é o sábado do Senhor, por isso se não encontrará. E chegou o sétimo dia; e, tendo saído alguns do povo a apanhá-lo, não o encontraram.

E o Senhor disse a Moisés: Até quando recusareis guardar os meus mandamentos e a minha lei? Considerai que o Senhor vos deu o sábado (para guardar), e que por isso vos dá ao sexto dia duplo sustento; cada um esteja na sua tenda, ninguém saia do seu lugar no sétimo dia.

E o povo observou o repouso do sétimo dia. E a casa de Israel deu àquele alimento o nome de Maná; e era como a semente de coentro, branco, e o seu sabor como o da farinha (amassada) com mel” [Êxodo, XVI, 13-31].

A mão de Deus não se encolheu (Is. LIX, 1).

Deus conduz a Sua Igreja com mais solicitude ainda do que teve com o povo hebreu errante no deserto da Arábia. Ele nunca deixou nem deixará faltar aos católicos, não o alimento corporal, mas a luz e a doutrina necessárias para trabalhar por Sua glória e chegar ao porto da Salvação eterna.

A Igreja, a Santa Igreja Católica militante, assemelha-se provisoriamente a um deserto: a santa doutrina não mais se mostra, a autoridade pontifícia não mais se exerce, os sacramentos rareiam, o mundo está mais agressivo do que nunca contra a verdade e a virtude. Em previsão do longo sabat que Ele nos faz viver para expiação de nossos pecados e purificação de nossa fé, Deus deu em tempo oportuno dupla porção de maná, um acréscimo de doutrina e de luz.

Esse tempo oportuno foi, sem sombra de dúvida, o pontificado de Pio XII, e muito particularmente o último ano de seu reinado. Esse ano derradeiro foi como um buquê de fogos de artifício em que todas as cores explodem e iluminam, em que o enlevo atinge o apogeu. Isso nos é tanto mais precioso quanto as trevas em seguida se instalaram rapidamente para tornar-se totais com o Vaticano II… elas perduram ainda.

Para que não perecêssemos de desorientação e de fome, para que evitássemos todos os escolhos que pudessem nos desviar da verdade e da inteira fidelidade à Igreja Católica, os últimos meses do pontificado de Pio XII foram verdadeiramente a sexta-feira da superabundância de maná.

Fazer deles um breve inventário nos confortará na fidelidade, e reanimará na confiança de que Deus não nos abandona: todos os princípios de que temos necessidade para saber o que fazer, o que pensar, o que dizer foram ensinados em tempo: mais de cinquenta anos depois, vemos ainda que não falta nenhum. Somos nós que nos arriscamos de faltar, caso não tomemos o cuidado de recolhê-los e aplicá-los.

Pio XII entregou sua alma a Deus em 9 de outubro de 1958. Evocaremos então, brevemente, os grandes princípios ensinados pelo Papa entre 10 de outubro de 1957 e sua morte. Cumpre forçosamente fazer uma escolha, de tanto é abundante o ensinamento do Papa; embora haja, pois, um elemento subjetivo nessa escolha, a palavra pontifícia permanece: essa palavra é a do próprio Jesus Cristo (quem vos ouve a mim ouve Lc. X, 16) e Jesus Cristo não fala para não dizer nada.

A piedade que menospreza a doutrina é vã

“[A organização da adoração ao Santíssimo Sacramento] seria uma coisa vazia se vós não estiverdes imbuídos do conhecimento da grandeza desse dom, tal que não há nem pode haver maior nem no céu nem na terra…” [17 de outubro de 1957]

A imoralidade de certas modas provém tanto da imodéstia quanto do luxo

Um esplêndido discurso de 8 de novembro de 1957, ao Congresso da União latina de alta costura, é consagrado às relações entre a moda indumentária e a vida cristã. Recorda, entre outras coisas, que a imodéstia – que pode ser tão grave em suas consequências – deve ser avaliada “não segundo o juízo de uma sociedade em decadência ou já corrompida; mas segundo as aspirações de uma sociedade que aprecia a dignidade e a gravidade dos costumes públicos”.

E acrescenta que a ostentação do luxo dissolve também – ainda que de maneira bem diferente – os bons costumes da sociedade cristã e sua unidade.

A conservação da saúde e da vida requer o uso dos meios ordinários, não dos meios extraordinários

“A razão natural e a moral cristã dizem que o homem (e quem quer que esteja encarregado de cuidar do seu semelhante) tem o direito e o dever, em caso de doença grave, de tomar as precauções necessárias para conservar a vida e a saúde. Esse dever, que ele tem para consigo mesmo, para com Deus, para com a comunidade humana e, o mais das vezes, para com certas pessoas determinadas, decorre da caridade bem ordenada, da submissão ao Criador, da justiça social e mesmo da justiça estrita, bem como da piedade para com a própria família. Mas não obriga habitualmente senão ao emprego dos meios ordinários (conforme as circunstâncias de pessoas, de lugares, de épocas, de cultura), ou seja, dos meios que não impõem nenhum encargo extraordinário para si ou para outrem. Uma obrigação mais severa seria pesada demais para a maioria dos homens e dificultaria demais a aquisição dos bens superiores mais importantes. A vida, a saúde, toda a atividade temporal, são na realidade subordinadas a fins espirituais. De resto, não é proibido fazer mais do que o estrito necessário para conservar a vida e a saúde, com a condição de não faltar a deveres mais graves” [24 de novembro de 1957].

O homem que vê tudo não reflete sobre nada

A radiomensagem de Natal de 1957 (22 de dezembro) aborda diversos temas com uma elevação de vistas e uma profundidade de reflexão admiráveis.

Especialmente, Pio XII prevê aí os danos da civilização da imagem e da informação (televisão, internet etc.) e adverte que é a inteligência mesma que é ameaçada e insensivelmente devastada:

“Orgulhoso de um poder tão incrementado e quase inteiramente absorvido pelo exercício dos sentidos, o homem ‘que vê tudo’ é levado, sem o perceber, a reduzir a aplicação da faculdade plenamente espiritual de ler no interior das coisas, ou seja a inteligência, a tornar-se cada vez menos capaz de amadurecer as ideias verdadeiras de que a vida se nutre.”

E, bem adiante em sua mensagem, o Papa desembosca uma tentação sutil:

“Há inclusive alguns que insinuam ser sabedoria cristã retornar à pretensa modéstia de aspirações das catacumbas. Seria sábio, pelo contrário, retornar à sabedoria inspirada do Apóstolo São Paulo, que, escrevendo de Corinto com uma intrepidez digna de sua grande alma, mas alicerçado na inteira soberania divina, abria todos os caminhos à ação dos cristãos: ‘Tudo é vosso… a vida e a morte, as coisas presentes e as coisas futuras: pois tudo vos pertence. Mas vós, vós sois de Jesus Cristo, e Jesus Cristo é de Deus’ (I Cor. III, 21).”

A autoridade e o alcance do Magistério da Igreja

“Seguindo o exemplo de Santo Tomás de Aquino e dos membros eminentes da Ordem dominicana que brilharam pela piedade e santidade de vida, a partir do momento em que se faz ouvir a voz do Magistério da Igreja, seja ordinário ou extraordinário, recolhei esta voz com ouvido atento e espírito dócil, sobretudo vós, diletos filhos que, por singular benefício de Deus, dedicai-vos aos estudos sagrados nesta Cidade augusta, perto da ‘Cátedra de Pedro e igreja principal, donde a unidade sacerdotal tirou a sua origem’ (São Cipriano). E o vosso dever não é apenas dar vossa adesão exata e sem delongas às regras e decretos do Magistério sagrado referentes às verdades divinamente reveladas – pois a Igreja Católica e somente ela, Esposa de Cristo, é a guardiã fiel desse depósito sagrado e sua intérprete infalível; mas devem-se receber também, com humilde submissão do espírito, os ensinamentos que tratam de questões da ordem natural e humana; pois aí também há, para os que professam a fé católica, e – é evidente – sobretudo para os teólogos e os filósofos, verdades que eles devem estimar enormemente, no mínimo quando esses elementos de ordem inferior são propostos como conexos e unidos às verdades da fé cristã e ao fim sobrenatural do homem.” [Alocução aos professores e alunos do Angelicum, 14 de janeiro de 1958].

Contra os tolos e os egoístas

Pio XII, em Discurso à Federação italiana das associações de famílias numerosas [20 de janeiro de 1958], ergue-se vigorosamente contra os perniciosos que discorrem sobre a fecundidade do matrimônio (chegando ao ponto de qualificá-la de doença social) de maneira irresponsável, impudica, desalentadora. É ir contra a fé e a confiança em Deus, contra a irradiação da virtude, contra o frescor da sociedade, contra a eclosão da santidade.

Não é possível citar aqui este rico discurso, e é pena: sente-se nele uma indignação muito forte do Papa, que não tem palavra demasiado dura para qualificar os propagandistas do “controle racional”, mesmo quando estes não promovem nenhum meio diretamente imoral. Pois fazem dos frutos do matrimônio uma espécie de peso que convém desejar reduzir, ao invés de enxergar neles o efeito da magnificência divina.

A Igreja Católica está no ápice da hierarquia do amor

“Mas o amor à pátria pode igualmente degenerar e tornar-se um nacionalismo excessivo e nocivo. Para que tal não aconteça, vós deveis visar para além da pátria; deveis considerar o mundo. Mas há somente um único modo de considerar o mundo, ao mesmo tempo que continuando a amar a própria região e a própria pátria: é preciso tomar consciência de uma realidade suprema, a Igreja. E é preciso ser dela uma parte viva.

É preciso que cada indivíduo seja uma parte viva da Igreja; que subordine tudo à graça divina, a qual deve ser conservada e aumentada; que esteja pronto a superar todos os obstáculos, a afrontar inclusive a morte, para não perder a fé, para não perder a graça” [23 de março de 1958].

[…]

A integridade da Santa Missa

Um decreto do Santo Ofício datando de 10 de julho de 1958 relata que sacerdotes se permitem omitir o inciso Mysterium fidei nas palavras da consagração do vinho [omissão que Lutero decretara e que se reencontra a partir de 1968 nas reformas emanadas do Vaticano II]. O decreto declara que “é sacrílego efetuar alterações em coisa tão santa e fazer supressões e acréscimos nos livros litúrgicos”.

A moral conjugal

Em Discurso ao Sétimo Congresso Internacional de Hematologia [12 de setembro de 1958], Pio XII responde às questões que lhe foram postas por estes médicos especialistas do sangue, e aproveita para fazer uma espécie de recapitulação da moral conjugal e dos princípios que permitem levar em conta os progressos (que frequentemente são regressões nesse domínio) da medicina e do conhecimento da biologia humana.

Não é possível entrar aqui em detalhes, mas nada é deixado na obscuridade. Não há nada de novo sob o sol, e o ensinamento de Pio XII é luz superabundante para saber como julgar (e rejeitar) aquilo que a malícia dos homens pôde inventar depois.

A política cristã face à apostasia

À França que se apressa em votar uma constituição política negadora de Deus e blasfema, Pio XII envia o Cardeal Ottaviani, legado ao Congresso Mariano Internacional (16 de setembro de 1958). O Cardeal, em nome do Papa que vive seus últimos dias, pronuncia um discurso patético que é luz de fé:

“A sociedade moderna é atormentada por uma febre de renovação medonha. Também está infestada de homens que querem se valer dos nossos sofrimentos para nos impor seus caprichos, fazer pesar sobre nós a tirania de seus vícios, construir entre nós o antro de seu deboche e de suas rapinas. O mal assume proporções imensas e adquire caráter apocalíptico. Jamais a humanidade conheceu tal perigo. De uma hora para outra, podemos perder não só a vida, mas também a civilização e toda esperança. O presente pode nos escapar junto com o futuro. Não arriscamos somente a perda de nossas riquezas, mas a ruína das bases mesmas da vida em sociedade (…).

Hoje, como no tempo das grandes heresias, predomina uma ciência de semi-sábios que se servem da doutrina para afagar sua vaidade sem experimentar, com relação à sabedoria das coisas sagradas, o temor reverencial necessário. Falei da pretensa ciência dos semi-sábios, pois raramente os verdadeiros sábios, os grandes sábios, se opuseram ao magistério supremo da Igreja. Essa ciência fácil dos semi-sábios esforçou-se em reduzir a eternidade ao tempo, o sobrenatural à natureza, a graça ao esforço humano e Deus ao homem.

Se Maria não retornar entre nós, como não temer as consequências de tantos erros e de tantos horrores?

Que será de nós? De quem esperaremos a salvação? Certamente não dos poderes humanos. A experiência de cada dia mostra demasiado claramente a verdade da advertência divina: Não coloqueis vossa esperança nos vossos líderes incapazes de procurar-vos a salvação (Sl. CXLV, 2). A incapacidade deles manifesta-se claramente: Há quarenta anos uma mancha de sangue vermelho, derramado pela tirania, começou a fazer pesar o fardo da mais insuportável opressão sobre os homens e sobre suas inteligências, sobre os indivíduos e sobre as nações. Malgrado os esforços dos homens de Estado para contê-la, ela nunca cessou de se expandir e ameaça em nossos dias tudo o que resta de liberdade e de dignidade humana no mundo inteiro. O Senhor mesmo parece querer permanecer surdo à nossa voz. Dir-se-ia que Ele aparenta entregar-se ao sono que provocou a oração do profeta: Erguei-vos, Senhor, por que dormis? e que arrancou aos discípulos um grito desolado na barca sacudida pela tempestade.

O Senhor parece dizer-nos, a nós também: ‘A minha hora ainda não chegou’ (Jo. II, 4). Mas a Imaculada, a Mãe de Deus, imagem e protetora da Igreja, provou-nos em Caná que ela queria e podia obter de algum modo a antecipação da hora divina. Nós, nós temos verdadeiramente necessidade de que essa hora venha depressa (…).

Por causa de nossos pecados, merecemos os massacres mais cruéis, as execuções mais desprovidas de piedade. Nós expulsamos seu Filho de nossas escolas, de nossas ágoras e de nossas casas. Expulsamo-Lo do coração de tantos homens, que nossas gerações repetiram o grito de antanho: Nós não queremos que esse homem reine sobre nós (Lc. XIX, 14). Entre Barrabás e Jesus, escolhemos Barrabás. Entre o mestre do universo e o malfeitor, nós preferimos Barrabás (…).

Maria, Mãe de amor e de dor, Mãe de Belém e do calvário, Mãe de Nazaré e de Caná, intervinde por nós, apressai a hora divina (…). Nós não podemos suportar mais, ó Maria, a geração humana perecerá, se vós não intervierdes.”

Trad. por Felipe Coelho.

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