O CARDEAL PIE, DOM GUÉRANGER E O EVANGELHO SOBRE A CRISE ECLESIÁSTICA

John S. Daly | 2005

Vós dizeis: “a defecção do episcopado católico em seu conjunto (todos os bispos tendo subscrito ao Vaticano II; inclusive Dom Lefebvre), aí está o que é certamente impossível, pois faltaria então à Igreja um elemento essencial, divinamente instituído: sua cabeça visível”.

Vós me atribuís arbitrariamente o que eu não sustento. Eu nunca disse que não sobrou nenhum bispo na Igreja nem que subscrever aos documentos do Vaticano II constituía, por esse fato mesmo, uma apostasia para cada bispo.

Mas a fé não nos garante que restará sempre grande número de bispos ou que estes serão fáceis de encontrar por todos os católicos. No início havia doze, se bem me recordo, e nada nos garante que essa cifra não possa diminuir em tempos de uma grande crise.

Os atos do Vaticano II sendo incompatíveis com a fé católica, não se segue que todo signatário tenha compreendido esse fato e querido apostatar. Mas se segue necessariamente que esse concílio não gozou das garantias divinas que ele teria tido se um verdadeiro Papa o tivesse confirmado. É assim mais fácil, mais direto e mais certo de mostrar que os “papas” do Vaticano II defeccionaram do que os bispos, pois os concílios, as leis, as liturgias e as encíclicas de um verdadeiro Papa não têm como faltar à conformidade com a fé, ao passo que desde o Vaticano II o contrário é uma evidência cotidiana.

A defecção relativa da hierarquia segue-se do fato de que resta somente uma centena de bispos nomeados por Papas legítimos e de que a hierarquia, falando globalmente, aceita a nova religião. Mas isso não implica no absoluto episcopovacantismo.

E isso não é impossível. “Verumtamen filius hominis veniens, putas inveniet fidem in terra?” Se Nosso Senhor indica que a fé estará, com toda a probabilidade, quase extinta quando de Seu retorno, Ele não passa em absoluto a impressão de que uma vasta hierarquia em bom estado, ensinando ativamente Suas doutrinas, estará a postos para acolhê-lO.

Vós dizeis: “Nessas condições, não há mais ensinamento garantido pela tradição apostólica confiada aos bispos, não há mais decisão autorizada, não há mais sacramento legítimo… em suma, não há mais Igreja visível…”

O ensinamento de 260 Papas e de uma vintena de Concílios permanece e não tem necessidade de ser confirmado por quem quer que seja.

Os sacramentos legítimos subsistem, pois pouco não é a mesma coisa que nada.

Quanto às decisões autorizadas que nos faltam decididamente… sim, mas a continuidade ininterrupta delas não foi prometida. Vivemos uma crise, não? É um castigo, não?

Mas a Igreja permanece visível como ela era visível, por exemplo, na manhã de Pentecostes, enquanto toda a sua hierarquia descia silenciosamente os degraus do Cenáculo, para o seu primeiro ato de apostolado.

*

Er, com licença, mas que história é essa de os bispos tradis serem a hierarquia da Igreja Católica? Quero questionar isso muito fortemente e creio que a maioria dos bispos tradis me apoiaria em o fazer.

Os bispos tradis são validamente consagrados e podem administrar confirmação e ordenação válida, mas eles não têm nenhuma autoridade.

A sucessão apostólica consiste não somente na sucessão de válidas ordens episcopais, mas também na sucessão de autoridade ou missão que todos os bispos hierárquicos têm de receber da Santa Sé ou através da Santa Sé. Os bispos tradis não a têm.

Claro que é prá lá de Bagdá alegar que a Igreja tenha dito que ela não pode ser reduzida a uma ínfima minoria remanescente e quando se vê algum problemão na invalidade de muitos dos novos sacramentos. E é-se incoerente ao repreender os sedevacantistas por certeza excessiva sobre essas questões, quando se expressam com grande certeza aquelas duas opiniões sem o respaldo de prova alguma. Mas, quanto à questão de onde está a hierarquia, se está correto de que há aí verdadeira dificuldade.

Não penso que a dificuldade seja insuperável, mas não pode haver solução para ela em homens que têm válidas ordens episcopais mas nenhum poder para governar a Igreja.

Um pensamento relevante ocorreu-me recentemente: os Evangelhos dão a impressão de que o Sinédrio condenou Nosso Senhor unanimemente: uma defecção total da existente hierarquia e magistério ordinário da Igreja do Antigo Testamento.

Na realidade, porém, descobrimos que vários de seus membros, apesar das aparências, não defeccionaram realmente: São José de Arimateia, Nicodemos e provavelmente Gamaliel – todos santos da Igreja Católica. Eles podem ter sido evasivos ou prevaricado. Podem ter fugido e se escondido. Mas eles não apostataram de fato, muito embora a fidelidade deles fosse por um tempo invisível.

Há, assim, precedente histórico para um período, correspondente ao da Paixão e Morte de Nosso Senhor, no qual a única hierarquia oficial parecia ter defeccionado unanimemente. E há um precedente para o fato de que essa aparência era, de fato, enganosa.

*

Eis o Cardeal Pie, reassegurando-nos de que o que estamos vivendo foi tudo profetizado e relembrando-nos de qual deve ser nosso dever central nestes dias de trevas:

“É certeza que, à medida que o mundo se aproxima do fim, os perversos e os sedutores terão cada vez mais o predomínio.

A Fé mal se encontrará mais na terra, ou seja, ela terá quase completamente desaparecido das instituições deste mundo.

Mesmo os que acreditam quase não ousarão professar suas crenças de modo público e coletivo.

A cisão, a separação, o divórcio das sociedades com Deus, que é dado por São Paulo como sinal do fim próximo (‘nisi venerit discessio primum’), tornar-se-á cada dia mais absoluto.

A Igreja, embora é claro que ainda uma sociedade visível, será cada vez mais reduzida a proporções individuais e domésticas. Ela que, em seus tenros dias, clamou: ‘o lugar é estreito, dai-me espaço para habitar’, verá cada polegada de seu território sob ataque. E finalmente a Igreja na terra padecerá verdadeira derrota: ‘foi-lhe permitido fazer guerra aos santos e vencê-los.’ (Apocalipse 13,7)  A insolência do mal estará no ápice.

Agora, nesse extremo, qual será o dever que permanece para todos os verdadeiros cristãos, para todos os homens de fé e coragem?

A resposta é esta: instigados a um vigor sempre maior pela aparente desesperança de seu apuro, eles redobrarão seu ardor na oração, sua energia nas obras e sua coragem no combate, para que cada uma de suas palavras e obras clame em uníssono:

‘Ó Deus, Pai nosso, que estais no Céu,
Santificado seja o Vosso Nome, assim na terra como no Céu,
Venha a nós o Vosso Reino, assim na terra como no Céu,
Seja feita a Vossa Vontade, assim na terra como no Céu,
Sicut in coelo…et in terra!’

E eles estarão ainda murmurando estas palavras ao ser a terra tirada de baixo de seus pés. E, assim como no passado, após calamidade comparável, o Senado Romano e todas as fileiras do estado, certa vez, saíram para cumprimentar o derrotado cônsul [Varrão] em seu retorno e para honrá-lo por não desesperar da República (‘quod de re publica non desperasset’), assim também o senado celestial, todos os coros dos Anjos e todas as fileiras dos Bem-Aventurados saem para dar as boas-vindas aos generosos atletas que continuaram o combate até o final, esperando contra a esperança mesma, ‘contra spem in spem’ (Romanos 4,17).”
(Cardeal Pie, 1815-1880).

Infelizmente, nunca encontrei a referência completa dessa passagem magnífica, citada pelo professor Chabot e pelo comandante Rouchette em seu estudo de 1985 L’Abomination de la Désolation [A Abominação da Desolação].
[N. do T. – A referência parece ser a seguinte: Conferência de 8 de novembro de 1859 em Nantes, in: Card. PIE, Oeuvres, Ed. Oudin, 1873, 4.ed., t. 3, p. 522.]

Eis mais uma, de um autor apreciado por todo católico digno desse nome, que acabo de traduzir (Dom Guéranger):

“Nenhuma violência é feita à liberdade do homem. O divino Espírito permite ao homem experimentar tudo, mas Ele continua a realizar Sua missão. Que haja vacância de quatro anos da Santa Sé, que antipapas surjam, sustentados pelo favor popular em alguns círculos e pela fraqueza em outros; que um longo cisma torne duvidosa a legitimidade de diversos pontífices…o Espírito Santo permitirá que a provação chegue a seu termo, reforçando entrementes a fé, esperança e caridade dos fiéis: eventualmente, no tempo designado, Ele apresentará Seu escolhido, que a Igreja inteira receberá com aclamação.”
(Dom Guéranger, Jesus Cristo, Rei da História).

Trad. por Felipe Coelho.

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