EPIFANIA DO SENHOR

S. Antônio de Pádua | século XIII

1. “Tendo nascido Jesus em Belém de Judá” etc. (Mt 2,1). Neste trecho evangélico consideraremos três acontecimentos: o aparecimento da estrela, a perturbação de Herodes, a oferta dos três magos.

I- A APARIÇÃO DA ESTRELA

2. “Tendo nascido Jesus em Belém” (Mt 2,1) etc. Na primeira parte, existe este ensinamento moral: de que maneira alguém se converte da vaidade do mundo para uma vida nova. Antes, porém, ouçamos brevemente a história, a narração.

Jesus nasceu numa noite de domingo, porque no dia em que Deus disse: “Faça-se a luz, e a luz foi feita” (Gn 1,3), “veio visitar-nos do alto um sol nascente” (Lc 1,78).

Narra-se que Otaviano Augusto, sob indicação da Sibila, tenha visto no céu uma virgem, grávida de um filho, e que desde então proibiu que o chamassem Dominus, Senhor, porque nascera “o Rei dos Reis e o Senhor dos Senhores” (Ap 19,16). Por isso, o poeta escreveu: “Eis que uma nova geração desce do alto do céu” (VIRGÍLIO. Égloga IV,7). Por todo o dia brotou de uma velha taberna um abundante jato de azeite, porque naquele dia nascia sobre a terra aquele que é consagrado com o óleo de alegria, de preferência a seus companheiros (cf. SI 44,8). O templo da Paz ruiu até os fundamentos. Com efeito, por causa da paz universal em que se encontrava todo o mundo sob César Augusto, os romanos haviam construído um maravilhoso templo à Paz. Aqueles que ali entravam para consultar a divindade e saber quanto duraria aquela paz tiveram essa resposta: Até que uma Virgem der à luz. Eles ficaram felizes, porque a interpretaram assim: A paz durará para sempre, porque jamais uma virgem poderá dar à luz. Mas Deus destruiu a sabedoria dos sábios e a prudência dos prudentes (cf. 1Cor 1,19), porque o templo ruiu até os fundamentos na hora do nascimento do Senhor.

Treze dias depois do seu nascimento, isto é, hoje, “eis que uns magos chegaram do Oriente a Jerusalém, dizendo: Onde está o rei dos judeus, que acaba de nascer? Porque nós vimos a sua estrela” (Mt 2,1-2). Eram chamados “magos” pela vastidão de seus conhecimentos; aqueles que os Gregos chamam filósofos, os persas chamam-nos magos. Vinham dos territórios dos persas e dos caldeus. Talvez não tenha sido impossível para eles percorrer em treze dias, montados em dromedários, aquelas grandes distâncias.

A estrela que haviam visto distinguia-se das outras pelo esplendor, pela posição e pelo movimento. Pelo esplendor, porque nem a luz do dia a fazia desaparecer; pela posição, porque não estava no firmamento com as estrela menores, e nem no éter com os planetas, mas fazia sua viagem no ar, nas proximidades da terra; e pelo movimento, porque primeiro permaneceu imóvel sobre a Judeia, depois deu aos magos a indicação para chegar ali; por própria conta, eles tomaram a decisão de entrar em Jerusalém, que era a capital da Judeia. Quando saíram dela, com o primeiro movimento visível, a estrela os precedeu. Tendo levado a termo a sua tarefa, desapareceu, retornando à primitiva matéria, da qual fora tirada.

Esta festa chama-se Epifania, dos termos gregos epi, sobre, e fane, manifestação, porque hoje Cristo foi manifestado com o sinal da estrela. É chamada também Teofania, sempre pelos termos gregos Theòs, Deus, e fané, porque hoje Cristo, passados trinta anos, foi manifestado pela voz do Pai e batizado no Jordão. E chamada também Bethfania, do termo hebraico beth, casa, porque, passado um ano do batismo, hoje realizou um milagre divino entre os muros de uma casa, numa festa de núpcias.

3. Vejamos agora o que significam, em sentido moral, a estrela, os magos, o Oriente e Jerusalém.

A estrela simboliza a iluminação da graça divina, ou também o conhecimento da verdade. Por isso, Jesus, do qual provém toda a graça, diz no Apocalipse: “Eu sou a raiz e a geração de Davi, a estrela resplandecente da manhã” (Ap 22,16). Jesus Cristo, embora filho, é também raiz, isto é, pai de Davi. Ou, como a raiz sustenta a árvore, assim a misericórdia de Cristo sustenta Davi, pecador e penitente. Cristo é estrela radiosa na iluminação da mente; é estrela da manhã no conhecimento da verdade.

Os magos representam os sábios do mundo, dos quais diz Isaías: “Os sábios, os conselheiros do faraó, deram-lhe um conselho insensato” (Is 19,11). O faraó, nome que se interpreta “que descobre o homem”, é figura do mundo que, depois de ter coberto o homem com sua vaidade, descobre-o na miséria da morte; o mundo não dá, mas só empresta, e no momento da máxima necessidade, exige aquilo que emprestou e assim abandona o homem na miséria e na nudez.

Insensato é, pois, o conselho daqueles sábios que exortam a acumular as coisas de outros, os bens deste mundo, que não poderão levar consigo, que induzem a carregar-se de coisas só emprestadas, que não poderão fazer passar consigo através da passagem estreita. Com efeito, a passagem da morte é tão estreita, que dificilmente pode passar ali a alma só e nua. Quando se chega àquela passagem, toda a carga de coisas temporais deve ser deixada: só os pecados, que não são substância (material), passam ali facilmente junto com a alma.

O Oriente é figura da vaidade do mundo ou de sua prosperidade. Diz Ezequiel: “Olhei, e eis uns homens que tinham as costas voltadas para o templo do Senhor e os rostos virados para Oriente e adoravam o sol nascente” (Ez 8,16). O templo representa a humanidade de Cristo, ou também vida de cada justo. Têm as costas voltadas para o templo do Senhor e a face para Oriente aqueles que, esquecidos da paixão e da morte de Cristo, orientam para a vaidade do mundo tudo aquilo que conhecem e tudo aquilo que sabem. Por isso, o Senhor lamenta-se por boca de Jeremias: “Voltaram para mim as costas e não o rosto. Mas no tempo de sua aflição”, isto é, da morte, “dirão: Levanta-te e salva-nos! Onde estão os teus deuses”, isto é, os prazeres e as riquezas, “que fabricaste para ti? Levantem-se e te libertem no tempo de tua aflição” (J2,27-28). Ou também: têm as costas contra o templo e adoram o sol nascente aqueles que desprezam a pobreza, a humildade e os sofrimentos dos justos, e proclamam felizes aqueles que abundam de prazeres e de riquezas.

Jerusalém, que significa “pacífica”, representa a vida nova, isto é, a vida de penitência. Diz Isaías: “O meu povo repousará na formosura da paz e nos tabernáculos da confiança e num descanso opulento” (Is 32,18). Feliz condição, na qual existe a graça da consciência tranquila, a confiança da conduta santa, a riqueza da caridade fraterna. Por isso, como a estrela chamou os magos do Oriente, assim a graça divina chama os pecadores da vaidade do mundo para a penitência, a fim de que procurem o nascido Rei, procurando-o o encontrem e encontrando-o o adorem.

“Onde está o rei dos judeus, que acaba de nascer?” Quer dizer: Onde está o Rei daqueles que confessam seus pecados, o Rei dos penitentes? Procuram o Rei dos penitentes, que nasceu neles, aqueles que prometem fazer penitência. Nós, dizem, que habitávamos no Oriente, que estávamos presos à vaidade do mundo, vimos sua estrela, isto é, reconhecemos sua graça, e assim “por meio dele”, por sua graça, “viemos adorá-lo” (Mt 2,2).

II – A PERTURBAÇÃO DE HERODES

4. “Ao ouvir isso, o Rei Herodes perturbou-se” (Mt 2,3). O diabo, o rei da turba perturbada, perturba-se! Também o mundo se perturba, quando ouve que Cristo já nasceu nos penitentes e vê também outros pecadores se converterem a ele por obra da graça. Satanás treme ao ver que seu reino se reduz e o reino de Cristo se expande sempre mais. Lemos no Êxodo: “O faraó disse a seu povo: Eis que o povo dos filhos de Israel é numeroso e mais forte do que nós. Vinde, oprimamo-lo de todos os modos, para que não cresça ainda mais em número” (Ex 1,9-10).

A astúcia do diabo oprime os filhos de Deus com a sugestão, a malícia do mundo os oprime com a blasfêmia e com a injúria. Por isso, continua o Êxodo: “Os Egípcios odiavam os filhos de Israel e os afligiam com insultos e faziam-lhes passar vida amarga” (Ex 1,13-14). Tormento (latim: frixorium, frigideira, grelha), tormento dos justos é a vida dos pecadores! Diz o salmo: “Moab é o vaso da minha esperança” (SI 59,10). Moab interpreta-se do pai”, isto é, aqueles que vêm do pai que é o diabo; eles são “o vaso da esperança” porque também os ímpios vivem para os justos, isto é, para sua utilidade, para sua vantagem.

Perturbou-se, pois, Herodes. Herodes interpreta-se “glória da pele”. Ele ficou perturbado porque nascera aquele rei pobre que diz: “Não recebo a glória dos homens” (Jo 5,41), e “eu não procuro a minha glória” (Jo 8,50). “O meu reino não é deste mundo” (Jo 18,36). Herodes, glória da pele, fica perturbado porque vê seu esplendor mudar-se em negrura, sua suavidade, em aspereza, como diz Isaías: “Em lugar de perfume suave terão o fedor e por cinta uma corda, e por cabelo encrespado, a calvície e por faixa de peito, o cilício” (Is 3,24). E essas palavras não necessitam de comentário, porque nos penitentes verificam-se literalmente.

Lemos ainda no Éxodo: “Agora depõe os teus ornamentos, e depois saberei o que deverei fazer-te” (Ex 33,5). Por isso, “a rainha Ester, aterrorizada com o perigo que estava iminente, refugiou-se no Senhor. E tendo deposto os vestidos reais, tomou um traje próprio de pranto e de luto, e, em lugar da variedade de unguentos, cobriu a cabeça com cinza e pó, e humilhou o corpo com jejuns, e, por todos os lugares em que antes costumava alegrar-se, espalhou os cabelos que se arrancava” (Est 14,1-2).

Ester, nome que se interpreta “escondida”, representa a alma penitente que se afasta da dissipação do mundo e se refugia na solidão do espírito e, por vezes, também do corpo; refugia-se no Senhor, porque em ninguém senão nele existe refúgio do perigo do pecado, que sempre lhe está presente e a ameaça, e, portanto, tem medo. Depõe os vestidos da glória e veste as vestes da penitência e, em lugar dos perfumes dos vários prazeres, espalha sobre a cabeça, isto é, a mente, a cinza de sua fragilidade e a imundície da própria iniquidade; insiste nos jejuns e reflete com angústia em todos os lugares nos quais antes se divertia. Isso é o que diz Gregório da Madalena: “Quantos haviam sido os prazeres que experimentou em si mesma, tantos foram os sacrifícios (as expiações) que se impôs”.

II – A OFERTA DOS TRÊS MAGOS

5. “E eis que a estrela que tinham visto no Oriente…” (Mt 2,9). Ó misericórdia de Deus, que jamais se esquece de ter piedade! Com efeito, está imediatamente próxima a quem retorna a ele. Diz Isaías: “Então invocarás o Senhor e ele te atenderá; clamarás a ele e ele te dirá: Eis-me aqui!” (Is 58,9), “porque eu sou o Senhor teu Deus misericordioso” (Dt 4,31).

“E eis a estrela”. Os magos tinham ido a Herodes e perderam de vista a estrela. E isso está a indicar os recidivos que, retornando ao diabo, ou seja, ao pecado mortal, perdem a graça; mas quando se libertam dele, então a readquirem. De fato, diz Jeremias: “Se um homem abandonar sua esposa e ela, separando-se dele, tomar outro marido, porventura o marido tornará a recebê-la? Porventura, a mulher não será considerada impura e contaminada? Tu, porém, que te prostituíste com muitos amantes”, isto é, com os demônios e os pecados, “apesar disso, volta para mim, diz o Senhor” (Jr 3,1).

“E eis que a estrela ia adiante deles” (Mt 2,9). Encontramos a concordância no Êxodo: “O Senhor ia adiante deles para lhes mostrar o caminho: de dia numa coluna de nuvem, e de noite numa coluna de fogo, para lhes servir de guia num e noutro tempo” (Ex 13,21). De dia, a coluna de nuvens era contra o ardor do sol; de noite, a coluna de fogo era contra as trevas, para que pudessem defender-se das serpentes. Observa que a iluminação da graça divina é chamada “coluna” porque sustenta, “de nuvens”, para que refresque o calor do sol, isto é, o calor da prosperidade terrena, “de fogo”, contra o frio da infidelidade, contra as trevas das adversidades e contra o veneno da sugestão diabólica.

“Até que, chegando sobre o lugar onde estava o menino, parou” (Mt 2,9). Eis o fim do trabalho, a meta da viagem, a alegria de quem procura, o prêmio de quem encontra. “Alegre-se, pois, o coração dos que te procuram” (SI 104,3), ó Jesus; e se aqueles que te procuram se alegram, quanto mais se alegrarão aqueles que te encontram. A estrela procede, a coluna precede. Aquela indica o caminho para o berço do Salvador, esta para a Terra Prometida: e no berço existe a Terra Prometida, onde corre o mel da divindade e o leite da humanidade. Corre, pois, atrás da estrela, apressa-te atrás da coluna, para que te guiem para a vida. Trabalharás pouco, chegarás logo e encontrarás o desejo dos santos, a alegria dos anjos.

6. “Vendo novamente a estrela, ficaram possuídos de grandíssima alegria” (Mt2,10). Presta atenção, porque nessas palavras é indicada uma tríplice alegria, aquela que deve provar aquele que recupera a graça perdida. Deve alegrar-se porque não morreu enquanto estava em pecado mortal e seria condenado eternamente; porque foi trazido de volta à graça, que não mereceu; porque, se perseverar, será conduzido à glória. Dessa tríplice alegria fala Isaías: “Alegrando-me, alegrar-me-ei no Senhor, e a minha alma exultará no meu Deus” (Is 61,10).

“E entrando na casa” (Mt 2,11). Lucas narra que “o filho mais velho, indignado, não queria entrar em casa” (Lc 15,25.28); o filho pródigo, porém, já tinha entrado, porque já tinha entrado em si mesmo (cf. Le 15,17). Foi dito aos apóstolos: “Não saudeis a ninguém pelo caminho” (Lc 10,4). Aquele que está a caminho, está fora, e quem está fora, está fora de casa, e, portanto, é indigno de ser saudado. Antes, como diz Amós: “Por todas as praças soarão gritos, e em todos os lugares de fora ouvir-se-á dizer: Ai, ai!” (Am 5,16).

“Viram o menino com Maria, sua mãe, e, prostrando-se, o adoraram” (Mt2,11). Porque entram, encontram; e porque encontram, prostram-se e adoram. No menino e em Maria são indicadas a inocência e a pureza; no fato de se prostrarem, o desprezo de si; e no fato de adorarem, o obséquio da fé. Eis, pois, que os penitentes entram na casa da própria consciência e encontram a inocência (a inocuidade em relação ao próximo, a pureza em relação a si mesmos; e disso não se ensoberbecem, mas prostram-se com o rosto por terra e adoram devota e fielmente aquele que lhes deu todas essas graças.

“E tendo entrado na casa” – talvez fosse aquele diversorium, albergue, do qual fala Lucas – “encontraram o menino com Maria, sua mãe”. A Glosa comenta: Por que, junto com Maria, os magos não encontraram também José? Para que, por aquele fato, não fosse dado motivo de injusta suspeita aos gentios que, apenas nascido o Salvador, haviam-lhe mandado logo “as suas primícias”, seus primeiros representantes, para adorá-lo.

“E abertos os seus tesouros” (Mt 2,11). A Glosa: Não abramos os nossos tesouros no caminho; aguardemos que tenham passado os inimigos, para poder oferecê-los somente a Deus no segredo do coração. O Rei Ezequias, que mostrou aos estrangeiros os tesouros [do templo], foi punido nos seus descendentes (cf. 2Rs 20,12-19). Deseja ser roubado aquele que carrega um tesouro publicamente pelo caminho (Gregório).

7. “Ofereceram-lhe os dons: ouro, incenso e mirra” (Mt 2,11). O ouro refere-se ao tributo (que se pagava ao rei), o incenso, aos sacrifícios e a mirra, à sepultura dos mortos. Por meio desses três dons são proclamados em Cristo o poder real, a majestade divina e a mortalidade humana. Em outro sentido: no ouro, que é brilhante e compacto e quando é batido não ressoa, é indicada a verdadeira pobreza, que não é obscurecida pela fuligem da avareza, não se incha ao vento das coisas temporais. Uma virtude firme (latim: res solida, uma substância compacta, um mosteiro concorde) faz o mesmo: diante dos escândalos não se perturba e não responde com murmurações.

Na Arábia, nome que significa “sagrada”, existe um bosque do qual se extrai o incenso e a mirra. Aqueles que são seus proprietários são chamados em árabe sagrados. Quando podam ou fazem incisões nessas árvores, eles não participam de funerais e não se contaminam em relações com mulheres. O incenso, uma árvore muito grande e frondosa, de uma casca finíssima, produz um suco aromático como o da amendoeira. O incenso é chamado em latim thus, de tùndere, bater, ou também do termo grego Theòs, Deus, em honra ao qual é queimado. O incenso é, com frequência, misturado com uma resina e outras substâncias gomosas, mas é diferente por suas propriedades. Com efeito, posto sobre brasas, o incenso arde, enquanto a resina fumega e as substâncias gomosas se liquefazem.

A árvore do incenso representa a oração devota, que é grandíssima pela contemplação, frondosa pela caridade fraterna, pois intercede tanto pelo amigo como pelo inimigo; tem uma casca finíssima, isto é, manifesta-se externamente com a benevolência e emite o suco das lágrimas, perfumadíssimo e oleoso diante de Deus.

Lê-se no Cântico dos Cânticos: “Levanta-te, Aquilão!”, quer dizer: Afasta-te, ó diabo!, “e vem tu, ó austro”, isto é, Espírito Santo; “sopra no meu jardim”, isto é, na minha mente, “e espalhem-se os seus aromas”, isto é, as lágrimas! (Ct 4,16). Esse suco é a refeição dos pecadores, como o leite de amendoeira é a refeição dos doentes. Aquele que reza, bate no peito e a oração sobe a Deus. Mas ai! Hoje a oração devota é estragada com uma mistura danificada, isto é, com a resina da vanglória, como nos hipócritas, e com a goma do dinheiro, como nos clérigos desventurados que rezam e celebram as missas pelo dinheiro. A verdadeira devoção inflama-se ao fogo do amor divino, enquanto aquela estragada pela vaidade faz fumaça, e a corrupta pela cobiça se liquefaz.

A árvore da mirra atinge até cinco côvados de altura. O suco que dela emana espontaneamente é considerado mais precioso, enquanto aquele extraído pelo corte da casca é menos precioso. A mirra, assim chamada de “amargura”, simboliza o amargo sofrimento do coração ou do corpo, cujo primeiro côvado é o pensamento da morte, o segundo, a presença do juiz severo no juízo, o terceiro, a sua sentença irrevogável, o quarto, a geena inextinguível, o quinto, a companhia de todos homens perversos e a penitência (latim: poena tenax), isto é, os tormentos absolutamente inevitáveis e contínuos aplicados pelos demônios.

Se o sofrimento sai espontaneamente dessa árvore, é mais precioso, isto é, mais aceito por Deus; em vez, aquele que é produzido pelas feridas das enfermidades ou das adversidades, tem valor menor.

8. Portanto, os magos “ofereceram ao Senhor ouro, incenso e mirra”. Assim também os verdadeiros penitentes oferecem-lhe o ouro da total pobreza, o incenso da oração devota, a mirra do sofrimento voluntário. E presta atenção, que o incenso da oração devota e a mirra da salutar penitência encontram-se somente na Arábia, isto é, na Santa Igreja. Aqueles que querem conservá-las e colher seus frutos devem afastar a si mesmos do cadáver do dinheiro acumulado injustamente, sobre o qual os avarentos se lançam como o corvo sobre a carniça, e dos contatos luxuriosos.

Supliquemos, pois, ao Senhor que nos conceda oferecer-lhe esses três dons, para depois podermos reinar com ele, que é bendito nos séculos. Amém.

IV – SERMÃO ALEGÓRICO

9. “Naquele tempo serão levadas oferendas ao Senhor dos exércitos por um povo dividido e despedaçado, por um povo terrível, depois do qual não houve segundo, por uma nação que está esperando, que é calcada aos pés e cuja terra é cortada pelos rios” (Is 18,7). Essa profecia de Isaías refere-se à conversão dos gentios, cujas primícias, isto é, os magos, levaram hoje os dons de ouro, incenso e mirra a Jesus Cristo, Senhor dos exércitos, quer dizer, dos coros angélicos. Diz Malaquias: “Desde o nascer do sol até o poente, o meu nome é grande entre as nações, e em todo o lugar se sacrifica c oferece em meu nome uma oblação pura, diz o Senhor dos exércitos” (MI 1,11).

Ora, para conhecermos melhor a miséria do povo gentio e a misericórdia do Deus libertador, tratemos brevemente os dois assuntos.

Aquele povo gentio (pagão), do qual também nós somos filhos, estava separado de Deus por causa do culto aos ídolos; por isso, falando dos judeus idólatras que haviam se unido a Jeroboão, Oséias diz: “Efraim está ligado aos ídolos; afasta-te dele. Os seus banquetes são separados dos vossos” (Os 4,17-18). Jeroboão, cujo nome se interpreta “divisão do povo”, “fez dois bezerros de ouro e disse ao povo: Não torneis mais a Jerusalém. Eis aqui, ó Israel, os teus deuses, que te tiraram da terra do Egito” (1Rs 12,18).

Do mesmo modo, o povo pagão era lacerado pela opressão do diabo, como se lê nas Paixões de alguns apóstolos: o diabo privava da vista, da audição e da capacidade de andar aqueles que o adoravam e os oprimia com várias tribulações. Diz Marcos: “E dando um grande grito e agitando-o com violência (o diabo| saiu dele” (Mc 9,25). E em outro lugar: “Os que eram atormentados por espíritos imundos ficavam curados” (Lc 6,18).

O povo pagão era também terrível pela ferocidade de ánimo. Diz Habacuque: “Eis que vou suscitar os caldeus, nação cruel e veloz, que percorre a superfície da terra, para apoderar-se das moradas que não são suas” (Hab 1,6). Os três magos vieram precisamente das terras dos persas e dos caldeus para adorar o Senhor. Depois daquele povo “não existiram outros tão terríveis”; com efeito, Habacuque continua: “É Horrível e terrível; os seus cavalos são mais ligeiros do que os leopardos e mais velozes do que os lobos durante a noite” (Hab 1,7.8).

“Uma nação que espera”. Esperava que se realizasse a profecia de Balão, de que fala a Escritura: “Nascerá uma estrela de Jacó e levantar-se-á uma vara” (Nm 24,17), ou seja, um homem, “de Israel”. “Nação oprimida” por muitas guerras. Como oprimia os outros, assim era também oprimida pelos outros: os caldeus destruíram Jerusalém e, por sua vez, foram depois destruídos por Ciro e por Dario. E não só eram oprimidos pelos estranhos, mas destruíam-se também entre si. Com efeito, Isaías continua: “Sua terra era destruída por seus rios”, isto é, pelas guerras intestinas e pelo derramamento de sangue.

Rendamos graças a Jesus Cristo, que de tal povo, infiel e bárbaro, dignou-se aceitar hoje os dons, primícias de fé, e dele formar a sua Igreja, que somos nós. A ele a honra e a glória nos séculos eternos. Amém.

V – SERMÃO MORAL

10. “Naquele tempo, serão levadas oferendas ao Senhor dos exércitos por um povo dividido de Deus” etc. Nesta passagem de Isaías são indicados os sete pecados mortais nos quais estavam enredados no passado alguns que agora, por graça de Deus, converteram-se à penitência. Povo separado de Deus pela soberba, lacerado pela avareza, terrível pela ira; nação à espera pela vanglória, oprimida pela inveja; terra destruída por dois rios, que são a gula e a luxúria. Falemos de cada uma destas coisas.

“Povo dividido, separado”, povo de soberbos. Como o vento erradica a árvore, assim a soberba separa o homem de Deus; diz Jó: “Como a uma árvore arrancada, tirou-me”, isto é, permitiu que me tirassem, “a minha esperança” (J6 19,10). A esperança do homem é Deus, da qual é separado, quando, pelo vento da soberba, é separado da raiz da humildade. E não deve causar admiração, porque a soberba tem esse nome porque vai acima de si (latim: super se iens), enquanto humildade quer dizer baixeza da terra (latim: humi vilitas). O soberbo sobe, Deus desce. O que existe de mais contraposto e antitético? O soberbo no alto, Deus embaixo. O soberbo erradicado de Deus: a ele não é agradável, e a ele não se une senão o humilde. A raiz é a vida da árvore, a humildade é a vida do homem. Se alguém tiver no seu jardim uma bela árvore frutífera, não lhe desagradaria se fosse arrancada pelo vento? Certamente!

Maior ainda será o desprazer quando o vento da soberba arranca nossa alma do seu Criador, que detesta a soberba mais do que todos os pecados, resiste aos soberbos (cf. 1Pd 5,5) e derruba os poderosos! (cf. Lc 1,52). Realmente, a soberba está sujeita a quedas; quem está embaixo está mais seguro do que aquele que está no alto. Com razão, diz Sêneca: “Entrega-te a coisas pequenas, das quais não podes cair”.

11. “Povo dilacerado” é o povo dos avarentos e dos usurários. Assim como as aves de rapina e as feras dilaceram um cadáver, da mesma forma os demônios dilaceram com a avareza o coração do avarento e do usurário. Diz Naum: “Ai da cidade sanguinária, cheia de falsidade e de extorsões. A rapina não se afastará de ti” (Na 3,1). A alma vive por meio do sangue (cf. Dt 12,23), o pobre, das próprias míseras substâncias. Tira o sangue do homem e do pobre as suas substâncias e ambos morrem. Portanto, os predadores e os usurários, que se apoderam das coisas dos outros, são chamados “cidade sanguinária”.

Diz-se na História natural que os elefantes têm o sangue muito frio e que os dragões venenosos desejam muito beber aquele sangue e, portanto, quando há grande calor, lançam-se contra os elefantes para sugar-lhes o sangue.

Assim também os avarentos e os usurários, contagiados pelo veneno da avareza, desejam as coisas dos outros. O sangue dos pobres é frio, assim como todas as suas pobres coisas. A pobreza e a nudez não lhes permitem que se aqueçam, mas quando se acende neles o calor da necessidade, então os avarentos aparecem, fazem-lhes empréstimos para depois sugar-lhes o sangue.

“Ai, pois, da cidade sanguinária, cheia de falsidade!” A falsidade está na língua, a laceração no coração, a rapina nas mãos. Lemos no Segundo livro dos Macabeus que Judas, tendo cortado a língua do sacrílego Nicanor (depois de haver-lhe cortado a cabeça), mandou que a lançassem em pedacinhos às aves (cf. 2Mc 15,33). Nicanor;’nome que se interpreta “lâmpada ereta”, representa o usurário, que parece ereto e luminoso e, ao invés, logo cairá e se extinguirá. Diz Jó: “Quantas vezes apagar-se-á a lâmpada dos ímpios?” (Jó 21,17) e ainda: “Porventura não se apagará a luz do mau e nunca mais brilhará a chama do seu fogo? A luz obscurecer-se-á em sua casa e a lâmpada que está sobre ela se apagará” (Jó 18,5-6).

A lâmpada tem duas coisas: a luz e o calor. Assim, o avarento tem a luz do favor humano, e o calor, o desejo do lucro temporário. Quando se apagar com a morte, será privado de ambas as coisas. E já que sua língua foi dividida e repartida em muitas falsidades, será cortada e entregue aos demônios; ou, pelos pecados da língua será punido de diversos modos. Seu coração é dilacerado porque acumula com trabalho, guarda com medo e perde com desprazer. O diabo mantém junto a si o usurário inteiro: com a rapina o mantém pelas mãos, para que não dê esmolas; com o tormento de acumular o mantém pelo coração para que não pense no bem; com a falsidade o mantém pela língua para que não pregue e nunca diga nada de bom.

12. “Povo terrível” são os iracundos ou os furiosos. Do diabo ou do homem iracundo Jó diz: “Juntou o seu furor contra mim e, ameaçando-me, rangeu os seus dentes contra mim. O meu inimigo olhou-me com olhos terríveis” (Jó 16,10). Vê quão terrível é o homem inflamado de ira: enruga a fronte, tem a face paca, assarias trementes, os olhos turvos, os lábios lívidos, range os dentes e tem nas mãos o azorrague. Um homem assim reduzido outra coisa não parece senão uma besta feroz. Com efeito, diz Isaías: “Depois dele não houve outro homem” (Is 18,7) tão cruel, tão bestial.

No Livro de Daniel diz-se de Nabucodonosor: “Mude-se nele o coração de homem, e lhe seja dado um coração de fera” (Dn 4,13). Não se deve entender que Nabucodonosor tenha sofrido uma mudança no corpo, mas que teve uma alienação mental, um delírio. Foi-lhe tirado o uso da língua para falar, e parecia-lhe ser um boi na parte anterior e um leão na posterior. Assim, aquele que está inflamado pela ira sofre uma alienação e não é mais capaz de falar corretamente. Primeiro se agita como um boi com os chifres, prorrompendo em ameaças e blasfêmias, depois, como um leão, excita-se e despedaça com as mãos e com os pés.

13. “O povo que espera” são os hipócritas e os vangloriosos: por toda a obra que fazem, esperam, como os mercenários, a recompensa do louvor. Lemos no evangelho: “O mercenário vê chegar o lobo, abandona as ovelhas e foge” (Jo 10,12). O lobo é a sugestão diabólica, as ovelhas são os pensamentos bons. Quem não age por amor à justiça, mas pela recompensa da vanglória, cede facilmente à tentação e se se propusera alguma coisa boa, abandona tudo. Dessa espera, diz-se no salmo: “Todos os animais do campo bebem nas fontes; suspiram por elas os onagros na sua sede” (SI 103,11).

Há duas espécies de onagros: uma sem chifres na Espanha, e outra com chifres na Grécia. Duas são também as espécies de hipócritas. Alguns hipócritas são, por assim dizer, sem chifres: eles, quando recebem uma injúria, mostram-se mansos, são calmos na tribulação e, por vezes, recusam as honras; mas fazem tudo isso por astúcia, porque, fingindo fugir da glória, na realidade a procuram. Os outros hipócritas, ao contrário, têm chifres: são aqueles que à primeira palavra injuriosa apresentam os chifres da soberba e imediatamente mostram por fora o que são por dentro.

O onagro deriva seu nome do grego onos, asno, e do latim ager, campo (o onagro é o asno selvagem). “O campo é o mundo” (Mt 13,38). Portanto, os hipócritas, tanto aqueles com chifres como aqueles sem chifres, são os asnos do mundo, ao qual servem; esperam a recompensa do louvor e do dinheiro, e tudo isso “na sua sede”, em que ardem, e não descansam enquanto não beberem alguma coisa. Mas “as bestas do campo”, isto é, os simples, “bebem no gozo nas fontes do Salvador” (Is 12,3), que são duas: a graça e a glória. Na primeira fonte bebem de fato, na segunda, na esperança, à espera de poder fazê-lo na visão.

14. “Nação oprimida” são os invejosos, atormentados e oprimidos pela felicidade dos outros. Os tiranos da Sicília não encontraram tormento maior do que a inveja (Horácio).

Lemos no Primeiro livro dos Reis: “Saul matou mil, e Davi, dez mil. Saul irou-se em extremo, e desagradou-lhe esta expressão, e disse: Deram dez mil a Davi e a mim mil; que lhe falta senão só o reino? Daquele dia em diante, pois, Saul não via Davi com bons olhos” (1Sm 18,7-9). Eis como estava atormentado, eis como se sentia oprimido.

15. “Os dois rios” simbolizam a gula e a luxúria. O Cobar e o Tigre são os dois rios da Babilônia (cf. Ez 1,1-3; Dn 10,4).

Cobar interpreta-se “gravidade”, e representa a gula, da qual Lucas diz: “Velai sobre vós, para que não suceda que os vossos corações se tornem pesados com a gula, a embriaguez e com os cuidados desta vida e para que aquele dia não vos apanhe de improviso” (Lc 21,34).

Tigre, rio que toma o nome de uma fera (o tigre) matizada de várias manchas, de força incrível e uma velocidade admirável, representa a luxúria. Esse vício é coberto com as manchas de vários prazeres da vida; é forte quando tenta e é veloz, porque também o prazer passa rápido. Diz o Bem-aventurado Bernardo: O futuro atormenta, o presente não sacia, o passado não deleita. Esses dois rios “destroem a terra”, isto é, subvertem a mente de quem lhe é escravo e lentamente a destroem.

Vimos a miséria de todos estes; consideremos também a misericórdia que os liberta de tanta desgraça. Eis que neste tempo de bondade e de misericórdia divina os pecadores, dos quais temos falado, levam a Jesus Cristo, o Senhor dos exércitos, isto é, das virtudes celestes, o dom de sua penitência.

Também vós, caríssimos, levai, junto com os magos, os vossos dons: o ouro da contrição, o incenso da confissão, a mirra da satisfação, ou seja, da obra de penitência, para poderdes ser dignos de receber do próprio Jesus Cristo, o dom da glória no céu.

Vo-lo conceda aquele que é bendito nos séculos. Amém.

Excerto de: SANTO ANTÔNIO; Sermões, Editora Vozes, 2021, 857-867.

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