Padre Matthias Gaudron, F.S.S.P.X.
1997
QUE JUÍZO SE DEVE TER SOBRE
O ENCONTRO DAS RELIGIÕES EM ASSIS?
O Encontro das Religiões em Assis, em 27 de outubro de 1986, foi um escândalo sem precedentes, induzindo as almas em erro. [Essa cerimônia sacrílega foi renovada em Assis, em janeiro de 1993, em Roma, em 1999, novamente em Assis, na presença do papa, em janeiro de 2002 e recentemente em Assis, em outubro de 2011.] Foi também uma falta contra o primeiro Mandamento de Deus: “Eu Sou o Senhor Teu Deus não terás, ao Meu lado, outros deuses além de Mim”. Jamais a Igreja foi tão humilhada como quando o papa [sic] se pôs no mesmo nível que os chefes de todas as religiões e de todas as seitas. Deu assim a impressão de que a Igreja Ca tólica é somente uma comunidade religiosa dentre muitas outras, que devem trabalhar juntas pelo estabelecimento da paz sobre a Terra. Como se pudesse haver uma outra paz fora da conversão dos homens a Cristo e à Sua Igreja! “Não vos prendais ao mesmo jugo que os infiéis. Que união pode haver entre a justiça e a iniquidade? Que comunidade pode haver entre a luz e as trevas? Que compatibilidade entre Cristo e Belial? Que associação entre o fiel e o infiel? Que acordo entre o Templo de Deus e os ídolos?” (2 Cor 6, 14-16)
Como o papa se pôs no mesmo nível que os chefes de todas as religiões e de todas as seitas?
Quando de sua palavra de recepção, que aconteceu na Basílica de Nossa Senhora, o papa estava sentado sobre os mesmos assentos que os chefes das outras religiões. Evitou-se tudo o que pudesse dar a impressão de que o papa lhes fosse superior, todos deviam parecer iguais.
O papa não testemunhou, em Assis, a sua Fé em Jesus Cristo?
O papa testemunhou sua fé pessoal em Jesus Cristo; mas, apesar da ordem de Cristo, ao enviar Seus Apóstolos em missão, não pediu aos representantes dessas religiões que se convertessem a Cristo. Ao contrário, convidou-os a rezar para seus falsos deuses:
“Daqui, iremos nos dirigir a lugares distintos para rezar. Cada religião terá o tempo e a ocasião de se exprimir segundo o rito tradicional que é o seu, Depois, desses lugares distintos de oração andaremos em silêncio em direção à esplanada da Basílica inferior de São Francisco. Uma vez reunidos na esplanada, cada religião poderá ainda apresentar sua oração, uma após a outra.
Tendo assim rezado separadamente, meditaremos em silêncio sobre nossa própria responsabilidade no trabalho pela paz. No fim deste dia, tentarei exprimir o que esta celebração única terá dito a meu coração, como crente em Jesus Cristo e primeiro servidor da Igreja Católica.” [João Paulo II, Alocução de 27 de outubro de 1986, na Basílica Santa Maria dos Anjos, DC nº 1928 (1986), p. 1.071.]
Não se tentou, em seguida, converter a Cristo os representantes das diversas religiões?
Não apenas nada foi feito, em Assis, para a conversão dos não cristãos como o Cardeal Etchegaray chegou a declarar, na esplanada da Basílica São Francisco, que era muito importante que os membros das diversas religiões permanecessem fiéis a sua falsa fé:
“Nós viemos de numerosas tradições religiosas através do mundo; nós nos encontramos dentro de uma total fidelidade a nossas próprias tradições religiosas, bem conscientes da identidade do compromisso de cada um na sua própria fé. Nós nos reunimos aqui sem nenhum traço de sincretismo. É o que faz a riqueza e o valor deste encontro de oração.” [Cardeal Etchegaray, DC nº 1929 (1986), p. 1.074.]
Houve celebração de cultos não cristãos durante a jornada de Assis?
Não somente cultos não cristãos foram publicamente celebrados, mas colocaram-se lugares de culto católicos à disposição das falsas religiões. Quando se pensa que uma igreja católica é um lugar santo, consagrado unicamente ao culto da Santíssima Trindade, não podemos deixar de pensar na “abominação da desolação” anunciada por Cristo (Mt 24,15).
O Vaticano não evitou, cuidadosamente, toda oração comum dos cristãos com os não cristãos, e não precisou que não se tratava de orar juntos, mas de estar juntos para orar? [A fórmula é de João Paulo II, DC nº 1929 (1986), p. 1.067.]
Essa fórmula parece mais uma concessão temporária feita aos opositores de Assis do que a expressão do pensamento do papa. Desde 1979, na sua encíclica inaugural, Redemptor hominis, João Paulo II anunciava sua intenção de chegar à “oração em comum” com os membros das outras religiões. [João Paulo II, Redemptor hominis, nº 6.] Mas, de toda maneira, o simples fato de promover publicamente o exercício dos falsos cultos, dando a entender que são agradáveis a Deus, é já um enorme escândalo, mesmo se não se participa diretamente neles. Deu Várias vezes manifestou que tinha abominação pelos falsos cultos, em particular pela idolatria, somé de todas as superstições.
Não se pode dizer que João Paulo II encorajou essas orações e esses cultos não enquanto são falsos, mas como expressões da religião natural?
Não se tratava, em Assis, de oração individual do homem na sua relação pessoal com Deus, mas sim da oração de diversas religiões como tais, com seu rito próprio, dirigida a sua divindade particular. Esses cultos, por serem a expressão pública de falsas crenças, são, em si, injúrias a Deus. De outro lado, a Sagrada Escritura, tanto no Antigo quanto no Novo Testamento, ensina que Deus somente toma por agradável a oração Daquele a Quem estabeleceu único Mediador entre Deus e os homens, Nosso Senhor Jesus Cristo, e que essa oração apenas se encontra na verdadeira Religião.
João Paulo II não tentou justificar sua iniciativa de Assis?
João Paulo II se pôs várias vezes a justificar a reunião de Assis, particularmente nos discursos que dirigiu aos Cardeais, em 22 de dezembro de 1986.
O que há de característico nesse discurso?
O mais chocante, nesse discurso, é que o papa se refere 35 vezes ao Concílio Vaticano II, sem mencionar nenhum outro texto magisterial. Afirma notadamente que “a chave apropriada de leitura para um tão grande acontecimento surge do ensinamento do Concílio Vaticano II”. [João Paulo II, “A situação do mundo e o espírito de Assis”. Discurso aos Cardeais e à Cúria, em 22 de dezembro de 1986. DC n°1933 (1987), p.133.] Ou ainda:
O acontecimento de Assis pode assim ser considerado uma visível ilustração, uma lição de coisas, uma catequese inteligível a todos, do que pressupõe e do que significa o compromisso ecumênico e o compromisso para o diálogo interreligioso recomendado e promovido pelo Concílio Vaticano II.” [ibid., p. 134.]
Como João Paulo II, nesse discurso, justifica teologicamente o encontro interreligioso de Assis?
Além das 35 referências a Vaticano II, João Paulo Il justifica o encontro interreligioso de Assis, afirmando: “Toda oração autêntica é suscitada pelo Espírito Santo, que está, misteriosamente, presente no coração de todo homem. [ibid., p. 136.]
O que se pode dizer dessa frase?
Essa frase contém duas afirmações. A primeira é ambígua (“toda oração autêntica é suscitada pelo Espírito Santo”), e a segunda é manifestamente falsa (“O Espírito Santo está, misteriosamente, presente no coração de todo homem”.
Por que é ambíguo afirmar que toda oração autêntica é suscitada pelo Espírito Santo?
A sentença é ambígua porque sua verdade ou sua falsidade depende do sentido que se dê à palavra “autêntica”. Se se entende por “oração autêntica” uma oração que permite aderir realmente a Deus, a sentença é incontestavelmente verdadeira. Porém, se se entende por ela “toda oração sincera”, a sentença é gravemente errônea (a oração de um budista diante do ídolo de Buda, a de um feiticeiro animista ou, até mesmo, a de um terrorista muçulmano podem ser sinceras. Não são, no entanto, suscitadas pelo Espírito Santo).
Por que é falso dizer que o Espírito Santo está misteriosamente presente no coração de todo homem?
Na linguagem da teologia católica, como na Sagrada Escritura, a expressão “presença do Espírito Santo” ou “habitação do Espírito Santo”. [Ex ab eo, immunde spiritus, et da locum Spiritui Sancto Paraclito (ritual do Batismo das crianças.] designa a presença sobrenatural de Deus, pela Graça santificante. Ora, mesmo se a palavra “misteriosamente” puder dar margem à mudança de sentido, é certo que o Espírito Santo não estará assim presente em todo homem.
O que diz a Tradição da Igreja sobre o assunto?
Quando ministra o Batismo, o padre ordena ao demônio: “Sai desta criança, espírito impuro, e cede lugar ao Espírito Santo Paráclito”. Isso indica que o Espírito Santo não habitava nessa alma.
O que se pode concluir sobre esse assunto?
É manifesto que uma proposição falsa está na base da justificativa da jornada interreligiosa de Assis.
Se João Paulo II manifestou, em Assis, um grande respeito pelas falsas religiões, estas manifestaram um respeito análogo em relação ao Catolicismo?
Os muçulmanos utilizaram sem vergonha o encontro de Assis para confessar sua fé em Alá como o único caminho correto. Eis o que foi sua na ção pela paz: “É a ti que adoramos; é a ti que imploramos. Conduze nesse caminho certo, o caminho daqueles que tu cobres de bênçãos: não daqueles que te irritam; nem dos que se desviam.
Em seguida então a surata II, 136 do Alcorão: “Cremos em Deus no que nos revela; no que revelava a Abraão, Ismael e Jacó e suas tribos: no que o Senhor dava a Moisés e a Jesus; no que dava aos profetas. Não fazemos diferenças entre eles e somos-lhes submissos.”
E a oração dos muçulmanos pela paz se encerrou com a surata CXII, recitada em árabe por todos os muçulmanos presentes:
“Em nome de Deus, o Misericordioso, cheio de misericórdia. Dize: Ele é Deus único; Deus o implorado. Não gerou, nem foi gerado. Ninguém o pode igualar.” [DC nº 1929 (1986), p. 1076-1077.]
O que se destaca nessas orações muçulmanas?
Estas afirmações – “”Deus não gerou, nem foi gerado” e “nós não fazemos diferenças entre os profetas” – estão dirigidas, expressamente, contra a Fé Cristã, que confessa que Jesus Cristo não é um profeta como os outros, mas o verdadeiro Filho de Deus, gerado pelo Pai antes de todos os séculos.
Como se encerrou a reunião de Assis?
Quando todas as delegações haviam cumprido seu culto pela paz, ficaram em silêncio e como que peregrinaram até a Basílica São Francisco, onde cada comunidade fez uma prece pela paz. Na sua alocução de encerramento, o papa fez a seguinte alusão a essa peregrinação:
“(..) Enquanto caminhávamos em silêncio, refletimos sobre o caminho que percorre a família humana: seja na hostilidade, se não sabemos nos aceitar uns aos outros; seja como uma estrada comum em direção ao nosso alto destino, se compreendemos que os outros são nossos irmãos e nossas irmãs. O fato mesmo de que diversas religiões do mundo, tenhamos vindo a Assis é, em si. um sinal desse caminho comum que a humanidade está chamada a percorrer. Ou bem aprendemos a caminhar juntos em paz e harmonia; ou bem partimos à deriva, para nossa ruína e a dos outros. Esperamos que essa peregrinação em Assis nos tenha reensinado a tomar consciência da origem e do destino comum da humanidade. Possamos nós ver aí uma prefiguração do que Deus desejaria que fosse o curso da história da humanidade: uma estrada fraternal sobre a qual nós acompanhamos uns aos outros em direção ao fim transcendente que Ele estabelece para nós (…).” [João Paulo II, discurso final da jornada de Assis, DC nº 1929 (1986), p. 1081.]
O que se pode dizer dessa alocução?
Deixaremos para um alto dignitário da Maçonaria, Armando Corona, Grão-Mestre da Grande Loja do Equinócio da Primavera (Itália), a preocupação de comentar:
“Nosso interconfessionalismo nos valeu a excomunhão recebida em 1738, da parte de Clemente XI. Mas a Igreja estava certamente em erro, se é verdade que, em 27 de outubro de 1986, o atual Pontífice reuniu em Assis, homens de todas as confissões religiosas para orarem juntos pela paz. E o que procuram de diferente os nossos irmãos quando se reúnem nos templos senão o amor entre os homens, a tolerância, a solidariedade, a defesa da dignidade da pessoa humana, considerando-se iguais, acima do credo político, do credo religioso e da cor da pele?” [Armando Corona, em Hiram, organismo do Grande Oriente da Itália, abril de 1987.]
O ecumenismo de Assis conflui para o plano maçônico: estabelecer um grande templo de fraternidade universal, acima das religiões e das crenças, “a unidade na diversidade”, tão cara à Nova Era e ao globalismo mundial.
RECOMENDAÇÃO COMPLEMENTAR: COMO OS LIBERAIS COLOCARAM AS MÃOS SOBRE O CONCÍLIO?
Excerto de: Pe. MATTHIAS GAUDRON, F.S.S.P.X.; Catecismo Católico da Crise na Igreja, Editora Permanência, 2011, pp. 126-131.
Deixe um comentário